Dois curtas

1.

Às vezes, pode ser assim: o verão traz a chuva, e eu visto suas tempestades, um vestido de noiva. Está escuro em Beirute. As ruas da cidade estão cheias, um cortejo fúnebre, os mortos nunca foram enterrados. Permaneço acordada. Ontem à noite, sonhei que eu sangrava e que você esfregava no meu corpo o sal raspado da superfície de Vênus. Comecei a brilhar e você me disse: “Pode ver? Tudo está melhor agora”. Espalho o resto do sal pelo mediterrâneo, observo o mar recuar, levando as coisas que amamos. Pode ver? Tudo está melhor agora. Precisávamos apenas devolver o nosso sal para a água.

Lara Atallah. https://bahrmagazine.com/tiger-balm-lara-atallah/


2.

Esta noite, o homem morrerá. De algum modo, a cidade já parece resignada, o crepúsculo plano de Beirute, fora do comum, nublado, uma imobilidade peculiar ondulando as árvores como vento. É fácil vestir a terra para a dor do luto, e esta noite os pássaros empoleirados nos emaranhados de fios de eletricidade parecem enlutados com suas penas pretas e brancas, sem canto, olhando para baixo, o concreto do campo de refugiados.

Opening lines of the novel The Arsonists’ City, by Hala Alyan.

Algo novo há de ser revelado

Querida Laila.

Um belo pôr do sol foi concedido à cidade do Cairo no dia em que você nasceu.

Pois dirigi pela nova rodovia, do extremo leste até o extremo oeste. No caminho, fileiras de palmeiras, esculpidas num céu alaranjado, preparavam-se para a manhã seguinte. A estrada é larga e flui, suavemente, sob um pôr do sol majestoso, e, ao longo dessas palmeiras, ocorreu-me uma experiência completa, porém, difícil de se ter durante as viagens, na normalidade cruel do Cairo, ao ar livre.

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Sr. Salário

Sally Rooney

Trechos

Não planejara voltar a Dublin, no Natal, mas Frank, meu pai, fazia um tratamento contra a leucemia. Minha mãe morrera de complicações do meu parto, e Frank não se casou, por isso, legalmente, ele era a única família que eu tinha. Conforme expliquei no e-email de boas-festas aos meus novos colegas de faculdade, em Boston, ele também estava morrendo.

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Os pinguins do Highgate Cemetery

Gosto de cemitérios. Morei atrás de um durante a maior parte da infância. Olhava pela janela do meu quarto as lápides que datavam do fim do século XIX. Ainda me lembro de alguns dos nomes. Às vezes, eu acenava para as pedras quando voltava da escola; às vezes, esquecia-me delas por semanas. Meus amigos e eu costumávamos cortar caminho pelo cemitério para chegar ao riacho ou ao bairro vizinho, e não nos preocupávamos sobre em quem estávamos pisando. Nunca tivemos medo. Nunca levamos aquele lugar a sério, nem espiritualmente.

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Someone to Watch Over Me — Paul Wilson

O povo observou os pergaminhos caindo em meio à fumaça como uma bênção. Eram como folhas secas. Devido ao pânico, foi difícil dizer ao certo quantos caíram naquela hora. As chamas e tudo o que veio depois da explosão na escola formaram uma névoa muito densa para que as câmeras de televisão pudessem registrar; mas um repórter de uma agência de notícias confirmou que viu quatro deles caindo, e que ele ultrapassou o cordão de isolamento policial e foi em direção à escola, ao campo de esportes para recuperar um deles. Uma mulher, cujo filho sobreviveu, disse que viu meia dúzia de pergaminhos caindo. Em cada um deles havia um verso escrito num idioma que ninguém reconheceu — pensaram que fosse árabe ou sânscrito —, mas que depois foi identificado como hebraico; caíram distantes uns dos outros, suavemente, no solo. Alguns foram capturados nas correntes espirais de ar quente, enquanto passavam rente à casa de caldeiras ainda em chamas, e iam em direção ao chão, e se sacudiam e se dispersavam como pombas.

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Small Things Like These — Claire Keegan

Trechos

Em outubro, as árvores ficaram amarelas. Depois, os relógios foram atrasados uma hora, e os ventos longos de novembro chegaram, soprando e despindo as árvores. Na cidadezinha de New Ross, a fumaça das chaminés avançava e espalhava-se em fios sinuosos, dispersando-se no cais. O rio Barrow, feito cerveja escura, logo encheu-se com as chuvas.

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Quarenta anos depois — Michael McLaverty

Apesar da forte chuva batendo nas janelas, dentro do trem estava quente e confortável, e enquanto ele, quase vazio, chacoalhava e oscilava pelos campos na noite escura, a mulher na poltrona do canto continuava o tricô, e o marido, em cujos olhos já não se via o mesmo brilho, tentava ler o livro que balançava sobre os joelhos, apesar dos esforços para mantê-lo firme. Estavam sozinhos. Acima deles, no bagageiro, havia duas malas, um chapéu de tweed masculino e uma vara de pesca numa capa de lona marrom. Conversavam pouco, e quando o trem parava em alguma estação, ela erguia a cabeça do tricô e lhe perguntava:

— Onde estamos agora, John?

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