Mais recentes do blog
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- Relógio de ouro, John McGahern
- Um microconto de natal
- Imagens e palavras
- Ainda é inverno
- Three fragments
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“Esses costumes também podem afetar a forma como construímos nossas memórias. (…) as lembranças se formam a partir das experiências sensoriais que vivemos: sons, cheiros, temperaturas, texturas e sensações corporais. Quando estamos realmente presentes, nosso cérebro registra essas informações e as transforma em recordações. É por isso que um cheiro de café pode trazer à mente a lembrança da casa da avó ou que o som de uma música pode nos transportar para um momento específico da vida. Mas, se a atenção está voltada para a câmera ou para a publicação que virá depois, parte dessa experiência sensorial se perde. “Se não estamos realmente presentes, ela pode não seguir o caminho natural para se consolidar”. Isso não significa que fotografar seja um problema em si. (…) A diferença está na intenção e na intensidade desse registro.”
https://vidasimples.co/saude-emocional/o-valor-de-nao-postar/
Acabo de ler outra notícia de feminicídio. Não bastasse a violência e injustiça desde sempre contra mulheres e meninas, o noticiário atual parece não dar conta de cobrir as histórias macabras de maridos e namorados assassinos. Diante desse cenário, já faz uns anos que penso ser uma benção uma mulher se tornar lésbica. Imagino: “Pai, preciso te contar uma coisa: sou lésbica.” Ao que o pai responde, feliz da vida: “Está tudo bem, filha. Tudo ficará bem, para sempre”.
“Granada branca”
Devia ser alguma edição da Caros Amigos de 2001. A crônica se chamava “Granada branca”, e era da Mariana Ianelli. Foi pela revista que a conheci, e que logo depois comprei o seu primeiro livro, Trajetória de antes, da editora Iluminuras. Gostaria de reler essa crônica. Lembro-me pouco dela, e não a encontrei na internet. Sei que se tratava do uso dos celulares em ambientes públicos. Eram tempos em que os toques eram altos, assim como as conversas ao aparelho. As pessoas faziam questão de falar alto ao telefone. Mas só me recordo disso. Tanta coisa mudou nesses vinte e cinco anos. Hoje, não se tira o olho da tela, a cabeça sempre baixa. O que seria a “granada branca” mesmo?
Dois curtas
Parágrafos iniciais traduzidos de dois contos do livro Walk the Blue Fields (2007) de Claire Keegan.
A noite das sorveiras
Pouco depois da morte do padre, uma mulher se mudou para a casa dele, na Colina de Dunagore. Era corajosa, certamente nunca tinha morado no litoral: em menos de cinco minutos, depois de pendurar a roupa no varal, tudo voou e foi parar no brejo. Margaret Flusk não tinha chapéu, nem botas de borracha, nem marido. Cabelo castanho e comprido, que esvoaçava em mechas soltas, nas costas, como algas. Usava um casaco grande de pele de ovelha, que lhe caía perfeitamente, e quando olhava para o mundo, ordinário e mortal, fazia-o com a severidade de uma mulher que suportou muita coisa, mas sobreviveu.
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Rendição
Durante cinco dias, o sargento manteve a carta dentro do bolso do uniforme. O desejo de abri-la era acompanhado do medo de saber o que havia nela. Ultimamente, as cartas dela, que não tinham mudado, ganharam um tom diferente, e ele ouvira que outro homem, um professor, levava um um pônei para pastar nas terras do pai dela, que ficava nas montanhas. O pasto que lá havia era pobre e coberto de juncos. Se o sargento fosse fazer o que pretendia, o tempo estava acabando. A vida, ele percebia, o encurralava.
O comprimido e um copo d’água.
Chuva no jardim
Molha a semente.
Aristolochia gigante

Caminhando pela manhã num parque, me deparei com essa flor estranhamente bonita. Quando voltei para casa, descrevia-a para o google, que a encontrou. Sair sem o celular me dá prazer. Lembro de quando a atenção estava em observar as coisas com interesse e calma, estar completamente presente, contemplar. Às vezes, quase esquecia de tirar a foto, que, geralmente, vinha no final para registrar uma parte da experiência.
