Momentos, crônica de Mariana Ianelli, no Jornal Rascunho

Um dia de gaivota em frente ao lago.

Se calhar são esses momentos que entrarão naquele cinema final da vida, quando se borram narrativas, circunstâncias, contextos, e tudo o que fica é só a inteireza de um poema. Um poema de instantes circulares, sem começo nem fim, sempre acontecendo. Um dia de gaivota em frente ao lago. Uma noite dormida na rede. Um momento de estrelas acordadas, fora e dentro. Um nada ilimitado e coruscante, cheio de ninguém. Urge viver a pré-estreia do poema. Estar em cada fotograma. Fazê-los.

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* coruscante: que corusca; fulgurante. Etimologia: Do latim coruscante-, «idem», particípio presente de coruscāre, «brilhar»

Ainda é inverno

Saí para caminhar neste domingo e dei uma chance para a academia, a dez minutos de casa. Na recepção, a atendente deu um bom-dia, ouviu minha pergunta e, sem dizer uma palavra, me deu as costas e continuou a conversar com um jovem. Enquanto eu esperava, observei a academia.

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O cemitério ao lado

É fim de maio. O calor infernal passou e o inverno chegará, cansado e fraco, para uma breve visita. Às vezes, os ventiladores ainda são ligados em casa. O ar-condicionado portátil está guardado, finalmente. Nesta cidade, reclamam quando a temperatura faz uma descida passageira para os quinze graus. As ondas passageiras de frio, são tudo o que sobrou. O inverno não é mais uma estação do ano. Ou será que foi algum dia? Três meses? A sala de espera do consultório médico está cheia de gente com casaco, o ar-condicionado está desligado, o sol entra pela lateral toda envidraçada, são duas horas da tarde, e aqui dentro deve fazer uns vinte e poucos graus. Pego minha receita e volto passando pelo cemitério. Paro diante da entrada e finjo ler o aviso pendurado à parede enquanto ouço dois senhores: Vê este lugar? A melhor parte da cidade. Todos calados. E tem essas árvores e esculturas. Natureza e arte para quem tanto as desprezava. Belas árvores, não? As esculturas, mesmo sujas, são magníficas. Extraordinária é a natureza. E tão misericordiosa. Suas terras, como um coração de mãe. Após um breve silêncio, viro para os dois, que já não estão mais ali. Olho ao meu redor e quando retorno o olhar para a entrada, vejo o portão fechado. Agora presto atenção no aviso, que informa o novo horário de funcionamento do cemitério. Bato a mão no bolso traseiro da calça para me certificar de que minha receita médica está ali e sigo o caminho, com o suor escorrendo pela testa, pelas costas.