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Trespasses, de Louise Kennedy

Cushla enrolou o casaco em volta da bolsa de mão e o empurrou para a fresta entre a geladeira de cerveja e o caixa. Eamonn, seu irmão, estava debruçado sobre o balcão, com a lista do estoque. Virou-se para ela, espremendo os olhos. Inclinou a cabeça na direção do espelho, que se estendia pelo bar. Cushla aproximou-se para se olhar no reflexo. O padre Slattery marcou-a com uma cruz, em traços espessos de uma polegada de largura e duas de altura. Esfregou o dedo, liberando um aroma de resina de pinheiro ou outro unguento com o qual as cinzas foram misturadas, e borrou a forma da cruz até ficar uma mancha escura. 

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Relógio de ouro, John McGahern

Foi na Rua Grafton onde nos encontramos, perambulando numa daquelas manhãs agradáveis e preguiçosas de sábado, na primavera, depois da semana de trabalho concluída, e o fim de semana estava tão novinho quanto o ramalhete de anêmonas, que parecia ser a única compra no cesto de vime dela.

— Que surpresa boa! — eu disse, quase agarrando sua mão quando um homem carregando nos braços um monte de pacotes nos separou, e ela trocou o cesto de mão, e então nos retiramos daquela multidão para a menos agitada Rua Harry. 

Não havíamos nos encontrado desde o fim da faculdade, na mesma turma de direito, há cinco anos. Soube que ficara noiva de um estudante de medicina, com quem costumava passear, e que fora trabalhar no setor privado, no interior, talvez esperando que ele concluísse a graduação.

— Veio aproveitar o fim de semana ou está de férias? — perguntei.

— Não, agora eu trabalho aqui.

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Um microconto de natal

Ele avançou para a vaga, quase batendo no outro carro que esperava havia uns três minutos, com a seta ligada, e, pelo retrovisor, viu a boca da motorista xingá-lo. Desligou o carro, pegou o celular e começou a ver um vídeo publicado num grupo de mensagens. Abriu a porta e sentiu o ar pesado, quente e sufocante. O shopping estava cheio para as compras de natal. Caminhou apressadamente em direção a entrada até desacelerar quando sentiu o ar fresco do interior. Encostou-se num canto de uma vitrine e reviu mais uma vez o vídeo, um trecho de uma entrevista do político que apoiava. Abriu a pequena lista de compras feita pela esposa, suspirou e mergulhou no fluxo de pessoas e sacolas, desviando delas com agilidade. Havia filas para tudo, e foi assim que se passaram quase duas horas, mesmo com sua rapidez para encontrar os presentes nas lojas. 

— Boas festas, senhor!

— Feliz natal. Fe-liz na-tal! — respondeu para a jovem do caixa, na última loja.

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Ainda é inverno

Saí para caminhar neste domingo e dei uma chance para a academia, a dez minutos de casa. Na recepção, a atendente deu um bom-dia, ouviu minha pergunta e, sem dizer uma palavra, me deu as costas e continuou a conversar com um jovem. Enquanto eu esperava, observei a academia.

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Three fragments

Clapham Common, South London

Clapham
He had spent a long time waiting for her to return to the front door, and the moments leading up to her leaving for Clapham Common tube station had played over and over in his mind. He thought about all the things he could have said to her that early autumn morning.
\\2007//

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Notes before departure

Siegessäule, Tiergarten Park. Berlim, julho de 2007.

The Continent
There was no knock on the door; the explosion came while we were preparing for the holidays. Dad stood in the corner, rattling his keys, while Mum called to us from the doorway. No one could hear our voices or screams. We were thrown, like lightning, into nowhere. The war still exists. There are killers everywhere, watching our fear and listening to our breathing, but no one is listening.
\\

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O cemitério ao lado

É fim de maio. O calor infernal passou e o inverno chegará, cansado e fraco, para uma breve visita. Às vezes, os ventiladores ainda são ligados em casa. O ar-condicionado portátil está guardado, finalmente. Nesta cidade, reclamam quando a temperatura faz uma descida passageira para os quinze graus. As ondas passageiras de frio, são tudo o que sobrou. O inverno não é mais uma estação do ano. Ou será que foi algum dia? Três meses? A sala de espera do consultório médico está cheia de gente com casaco, o ar-condicionado está desligado, o sol entra pela lateral toda envidraçada, são duas horas da tarde, e aqui dentro deve fazer uns vinte e poucos graus. Pego minha receita e volto passando pelo cemitério. Paro diante da entrada e finjo ler o aviso pendurado à parede enquanto ouço dois senhores: Vê este lugar? A melhor parte da cidade. Todos calados. E tem essas árvores e esculturas. Natureza e arte para quem tanto as desprezava. Belas árvores, não? As esculturas, mesmo sujas, são magníficas. Extraordinária é a natureza. E tão misericordiosa. Suas terras, como um coração de mãe. Após um breve silêncio, viro para os dois, que já não estão mais ali. Olho ao meu redor e quando retorno o olhar para a entrada, vejo o portão fechado. Agora presto atenção no aviso, que informa o novo horário de funcionamento do cemitério. Bato a mão no bolso traseiro da calça para me certificar de que minha receita médica está ali e sigo o caminho, com o suor escorrendo pela testa, pelas costas.

Dois curtas

1.

Às vezes, pode ser assim: o verão traz a chuva, e eu visto suas tempestades, um vestido de noiva. Está escuro em Beirute. As ruas da cidade estão cheias, um cortejo fúnebre, os mortos nunca foram enterrados. Permaneço acordada. Ontem à noite, sonhei que eu sangrava e que você esfregava no meu corpo o sal raspado da superfície de Vênus. Comecei a brilhar e você me disse: “Pode ver? Tudo está melhor agora”. Espalho o resto do sal pelo mediterrâneo, observo o mar recuar, levando as coisas que amamos. Pode ver? Tudo está melhor agora. Precisávamos apenas devolver o nosso sal para a água.

Lara Atallah. https://bahrmagazine.com/tiger-balm-lara-atallah/


2.

Esta noite, o homem morrerá. De algum modo, a cidade já parece resignada, o crepúsculo plano de Beirute, fora do comum, nublado, uma imobilidade peculiar ondulando as árvores como vento. É fácil vestir a terra para a dor do luto, e esta noite os pássaros empoleirados nos emaranhados de fios de eletricidade parecem enlutados com suas penas pretas e brancas, sem canto, olhando para baixo, o concreto do campo de refugiados.

Opening lines of the novel The Arsonists’ City, by Hala Alyan.

Algo novo há de ser revelado

Querida Laila.

Um belo pôr do sol foi concedido à cidade do Cairo no dia em que você nasceu.

Pois dirigi pela nova rodovia, do extremo leste até o extremo oeste. No caminho, fileiras de palmeiras, esculpidas num céu alaranjado, preparavam-se para a manhã seguinte. A estrada é larga e flui, suavemente, sob um pôr do sol majestoso, e, ao longo dessas palmeiras, ocorreu-me uma experiência completa, porém, difícil de se ter durante as viagens, na normalidade cruel do Cairo, ao ar livre.

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Ao leitor

Ao leitor invisível, num sábado à tardezinha, na bagunça dos livros, no calor do cômodo, com o ruído do ventilador, o barulho dos carros, das motos. Àquele que não está fotografado na sala de leitura nem à beira da piscina, mas concentrado, num canto improvisado, onde se esquece do relógio e do seu espaço.

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Sr. Salário

Sally Rooney

Trechos

Não planejara voltar a Dublin, no Natal, mas Frank, meu pai, fazia um tratamento contra a leucemia. Minha mãe morrera de complicações do meu parto, e Frank não se casou, por isso, legalmente, ele era a única família que eu tinha. Conforme expliquei no e-email de boas-festas aos meus novos colegas de faculdade, em Boston, ele também estava morrendo.

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