Tessa Hadley reads Gold watch, by John McGahern, New Yorker

Gold Watch

By John McGahern

March 10, 1980

IT was in Grafton Street we met, aimlessly strolling on one of the lazy lovely Saturday mornings in spring, the week of work over, the weekend still as fresh as the bunch of anemones that seemed the only purchase in her cane shopping basket.

“What a lovely surprise,” I said, and was about to take her hand when a man with an armload of parcels parted us as she was shifting the basket to her other hand, and we withdrew from the pushing crowds into the comparative quiet of Harry Street. We had not met since we had graduated in the same law class from University College five years before. I had heard she’d become engaged to the medical student she used to knock around with, and had gone into private practice down the country, perhaps waiting for him to graduate.

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Imediatez – o estilo do capitalismo tardio demais, artigo do A Terra é redonda sobre o livro Imediatez, de Anna Kornbluh

Uma das teses centrais do livro é de que essa metamorfose cultural encontra uma contundente confirmação no predomínio da “autoficção” na literatura contemporânea, desde Annie Ernaux e Edouard Louis até Karl Knausgård. A literatura moderna, desde meados do século XVIII até os fins do século XX, constitui-se por uma reflexividade ampliada que encontra sua expressão mais elevada na objetividade especulativa da narrativa em terceira pessoa.

A imediatez, ao contrário, se manifesta na predileção dos autores por descrever as próprias vivências autobiográficas em primeira pessoa, no apego ideológico à verdade pessoal e na consolidação de uma larga fatia do mercado editorial para a comercialização da identidade supostamente autêntica – o combate à ficcionalidade nessa literatura, o caráter de evidência sem máscaras é, em si mesmo, a sua ideologia.

O retorno à dominância da primeira pessoa seria um encolhimento das potencialidades expressivas do romance, uma involução da forma, tendo como resultado a superficialidade, a fragmentação e o mecanicismo – tal como na crítica de György Lukács à substituição da narração realista pela descrição naturalista.

A autora não toma a narrativa em primeira pessoa como diagnóstico ingenuamente, pois, desde a epígrafe, relembra que a imediatez é uma configuração social ou, nas palavras de Hegel, “a própria imediatez é essencialmente mediada”. O período em que dominava a narrativa em terceira pessoa – sobre o qual Anna Kornbluh não se alonga – corresponde descrição de autores como Paulo Arantes do “longo século XIX”, entre a Queda da Bastilha e a Queda do Muro de Berlim, no qual persistia a latência utópica pelo futuro e por uma sociedade radicalmente transformada.

Fredric Jameson afirma que a revolução cultural burguesa ganhava expressão formal no narrador voraz que buscava abarcar a emergência de personagens e suas relações recíprocas, de lugares novos e sensações inexploradas. Anna Kornbluh nos fornece um gráfico em que o século XXI começa com uma acelerada inversão dessa tendência:

A autora argumenta que a narrativa confinada no indivíduo se relaciona com a redução histórica dos indivíduos a “capital humano” do neoliberalismo, quando as experiências de precarização, subemprego e endividamento só deixam aos despossuídos a propriedade de sua identidade pessoal, em competição com as demais na luta por recursos escassos no mercado.

Os novos cercamentos de uma economia espoliativa, o policiamento e a repressão dos espaços antes públicos, a mercantilização da saúde e da educação, teorizados por autores como David Harvey e Silvia Federici, são aqui evocados como as condições para a consolidação da sensibilidade cultural da imediatez.

A imediatez veta o distanciamento do narrador e se crê superior justamente em sua limitação ao evidente, a experiência direta, ao não-ficcional. Do ponto de vista formal, diz a autora, o estilo se caracteriza pelo “tempo verbal presente”, pela “dilação do abjeto” e pela “prosa arquipelágica”. Os romances de autoficção buscam uma aproximação populista com o leitor: abraçam a perspectiva estreita, mergulham nas imagens escatológicas do instante vivido e evitam a totalidade através do investimento em estilhaços de narrativa.

🔗 Leia o artigo completo em https://aterraeredonda.com.br/imediatez-o-estilo-do-capitalismo-tardio-demais-2/

Há 50 anos, Cartola registrava em disco ‘O mundo é um moinho’ e ‘As rosas não falam’

Dois anos depois de lançar seu primeiro disco, Cartola apresentou, em 1976, seu segundo álbum solo — pela mesma gravadora, a Marcus Pereira —, com pelo menos três registros inesquecíveis.

O primeiro é de sua obra-prima O Mundo É um Moinho, que abre o álbum de mesmo nome. A emblemática música começa com Altamiro Carrilho na flauta, até o sambista cantar com o violão do jovem Guinga ao fundo — este se destacaria como compositor parceiro de Aldir Blanc.

Cartola fez a música para a sua filha de criação, Creusa, que desejava sair de casa após uma desilusão amorosa: Ainda é cedo, amor/ Mal começaste a conhecer a vida/ Já anuncias a hora de partida/ Sem saber mesmo o rumo que irás tomar.

🔗 Continue em  https://www.cartacapital.com.br/blogs/augusto-diniz/ha-50-anos-cartola-registrava-em-disco-o-mundo-e-um-moinho-e-as-rosas-nao-falam/

Momentos, crônica de Mariana Ianelli, no Jornal Rascunho

Um dia de gaivota em frente ao lago.

Se calhar são esses momentos que entrarão naquele cinema final da vida, quando se borram narrativas, circunstâncias, contextos, e tudo o que fica é só a inteireza de um poema. Um poema de instantes circulares, sem começo nem fim, sempre acontecendo. Um dia de gaivota em frente ao lago. Uma noite dormida na rede. Um momento de estrelas acordadas, fora e dentro. Um nada ilimitado e coruscante, cheio de ninguém. Urge viver a pré-estreia do poema. Estar em cada fotograma. Fazê-los.

🔗 Leia a crônica completa em https://rascunho.com.br/cronistas/mariana-ianelli/momentos

* coruscante: que corusca; fulgurante. Etimologia: Do latim coruscante-, «idem», particípio presente de coruscāre, «brilhar»

Um microconto de natal

Ele avançou para a vaga, quase batendo no outro carro que esperava havia uns três minutos, com a seta ligada, e, pelo retrovisor, viu a boca da motorista xingá-lo. Desligou o carro, pegou o celular e começou a ver um vídeo publicado num grupo de mensagens. Abriu a porta e sentiu o ar pesado, quente e sufocante. O shopping estava cheio para as compras de natal. Caminhou apressadamente em direção a entrada até desacelerar quando sentiu o ar fresco do interior. Encostou-se num canto de uma vitrine e reviu mais uma vez o vídeo, um trecho de uma entrevista do político que apoiava. Abriu a pequena lista de compras feita pela esposa, suspirou e mergulhou no fluxo de pessoas e sacolas, desviando delas com agilidade. Havia filas para tudo, e foi assim que se passaram quase duas horas, mesmo com sua rapidez para encontrar os presentes nas lojas. 

— Boas festas, senhor!

— Feliz natal. Fe-liz na-tal! — respondeu para a jovem do caixa, na última loja.

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Notes before departure

Siegessäule, Tiergarten Park. Berlim, julho de 2007.

The Continent
There was no knock on the door; the explosion came while we were preparing for the holidays. Dad stood in the corner, rattling his keys, while Mum called to us from the doorway. No one could hear our voices or screams. We were thrown, like lightning, into nowhere. The war still exists. There are killers everywhere, watching our fear and listening to our breathing, but no one is listening.
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O cemitério ao lado

É fim de maio. O calor infernal passou e o inverno chegará, cansado e fraco, para uma breve visita. Às vezes, os ventiladores ainda são ligados em casa. O ar-condicionado portátil está guardado, finalmente. Nesta cidade, reclamam quando a temperatura faz uma descida passageira para os quinze graus. As ondas passageiras de frio, são tudo o que sobrou. O inverno não é mais uma estação do ano. Ou será que foi algum dia? Três meses? A sala de espera do consultório médico está cheia de gente com casaco, o ar-condicionado está desligado, o sol entra pela lateral toda envidraçada, são duas horas da tarde, e aqui dentro deve fazer uns vinte e poucos graus. Pego minha receita e volto passando pelo cemitério. Paro diante da entrada e finjo ler o aviso pendurado à parede enquanto ouço dois senhores: Vê este lugar? A melhor parte da cidade. Todos calados. E tem essas árvores e esculturas. Natureza e arte para quem tanto as desprezava. Belas árvores, não? As esculturas, mesmo sujas, são magníficas. Extraordinária é a natureza. E tão misericordiosa. Suas terras, como um coração de mãe. Após um breve silêncio, viro para os dois, que já não estão mais ali. Olho ao meu redor e quando retorno o olhar para a entrada, vejo o portão fechado. Agora presto atenção no aviso, que informa o novo horário de funcionamento do cemitério. Bato a mão no bolso traseiro da calça para me certificar de que minha receita médica está ali e sigo o caminho, com o suor escorrendo pela testa, pelas costas.

Dois curtas

1.

Às vezes, pode ser assim: o verão traz a chuva, e eu visto suas tempestades, um vestido de noiva. Está escuro em Beirute. As ruas da cidade estão cheias, um cortejo fúnebre, os mortos nunca foram enterrados. Permaneço acordada. Ontem à noite, sonhei que eu sangrava e que você esfregava no meu corpo o sal raspado da superfície de Vênus. Comecei a brilhar e você me disse: “Pode ver? Tudo está melhor agora”. Espalho o resto do sal pelo mediterrâneo, observo o mar recuar, levando as coisas que amamos. Pode ver? Tudo está melhor agora. Precisávamos apenas devolver o nosso sal para a água.

Lara Atallah. https://bahrmagazine.com/tiger-balm-lara-atallah/


2.

Esta noite, o homem morrerá. De algum modo, a cidade já parece resignada, o crepúsculo plano de Beirute, fora do comum, nublado, uma imobilidade peculiar ondulando as árvores como vento. É fácil vestir a terra para a dor do luto, e esta noite os pássaros empoleirados nos emaranhados de fios de eletricidade parecem enlutados com suas penas pretas e brancas, sem canto, olhando para baixo, o concreto do campo de refugiados.

Opening lines of the novel The Arsonists’ City, by Hala Alyan.

Algo novo há de ser revelado

Querida Laila.

Um belo pôr do sol foi concedido à cidade do Cairo no dia em que você nasceu.

Pois dirigi pela nova rodovia, do extremo leste até o extremo oeste. No caminho, fileiras de palmeiras, esculpidas num céu alaranjado, preparavam-se para a manhã seguinte. A estrada é larga e flui, suavemente, sob um pôr do sol majestoso, e, ao longo dessas palmeiras, ocorreu-me uma experiência completa, porém, difícil de se ter durante as viagens, na normalidade cruel do Cairo, ao ar livre.

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Sr. Salário

Sally Rooney

Trechos

Não planejara voltar a Dublin, no Natal, mas Frank, meu pai, fazia um tratamento contra a leucemia. Minha mãe morrera de complicações do meu parto, e Frank não se casou, por isso, legalmente, ele era a única família que eu tinha. Conforme expliquei no e-email de boas-festas aos meus novos colegas de faculdade, em Boston, ele também estava morrendo.

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Os pinguins do Highgate Cemetery

Gosto de cemitérios. Morei atrás de um durante a maior parte da infância. Olhava pela janela do meu quarto as lápides que datavam do fim do século XIX. Ainda me lembro de alguns dos nomes. Às vezes, eu acenava para as pedras quando voltava da escola; às vezes, esquecia-me delas por semanas. Meus amigos e eu costumávamos cortar caminho pelo cemitério para chegar ao riacho ou ao bairro vizinho, e não nos preocupávamos sobre em quem estávamos pisando. Nunca tivemos medo. Nunca levamos aquele lugar a sério, nem espiritualmente.

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Someone to Watch Over Me — Paul Wilson

O povo observou os pergaminhos caindo em meio à fumaça como uma bênção. Eram como folhas secas. Devido ao pânico, foi difícil dizer ao certo quantos caíram naquela hora. As chamas e tudo o que veio depois da explosão na escola formaram uma névoa muito densa para que as câmeras de televisão pudessem registrar; mas um repórter de uma agência de notícias confirmou que viu quatro deles caindo, e que ele ultrapassou o cordão de isolamento policial e foi em direção à escola, ao campo de esportes para recuperar um deles. Uma mulher, cujo filho sobreviveu, disse que viu meia dúzia de pergaminhos caindo. Em cada um deles havia um verso escrito num idioma que ninguém reconheceu — pensaram que fosse árabe ou sânscrito —, mas que depois foi identificado como hebraico; caíram distantes uns dos outros, suavemente, no solo. Alguns foram capturados nas correntes espirais de ar quente, enquanto passavam rente à casa de caldeiras ainda em chamas, e iam em direção ao chão, e se sacudiam e se dispersavam como pombas.

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