
Cushla enrolou o casaco em volta da bolsa de mão e o empurrou para a fresta entre a geladeira de cerveja e o caixa. Eamonn, seu irmão, estava debruçado sobre o balcão, com a lista do estoque. Virou-se para ela, espremendo os olhos. Inclinou a cabeça na direção do espelho, que se estendia pelo bar. Cushla aproximou-se para se olhar no reflexo. O padre Slattery marcou-a com uma cruz, em traços espessos de uma polegada de largura e duas de altura. Esfregou o dedo, liberando um aroma de resina de pinheiro ou outro unguento com o qual as cinzas foram misturadas, e borrou a forma da cruz até ficar uma mancha escura.
Eamonn socou um guardanapo úmido na mão dela. — Vamos logo — ele sussurrou.
A maioria dos homens que bebia no pub não estava marcada com as cinzas da Quarta-feira de Cinzas, não participava da Via Crucis, na Sexta-feira Santa nem ia à missa de domingo. Uma coisa num bar cujo dono era católico, outra era ter a cerveja servida por uma mulher manchada com uma pintura de guerra papista. Cushla esfregou até sua testa ficar rosa; o guardanapo ficou preto, e ela o jogou no lixo.
Eamonn resmungou bem baixinho. A única coisa que ela entendeu foi “idiota”.
Os clientes habituais estavam ao longo do balcão. Jimmy O’Kane e seu único ovo que trouxe para a hora do chá fazia volume no bolso da camisa. Minty, o zelador escolar, bebeu tanta Carlsberg que tornou o pub vencedor do prêmio de maior vendedor da Irlanda do Norte, embora ela tenha sido o único que bebeu aquela linha especial da cerveja. Fidel, com seu boné cáqui e seus óculos escuros. Durante o dia, vendia as tradicionais balinhas de menta e os docinhos de cravo, na loja da mãe; à noite, era brigadista da Associação de Defesa de Ulster. Um montador do estaleiro chamou Leslie, que só abria a boca depois de bêbado, e que numa noite disse a Cushla que gostaria de tomar banho com ela. Outro homem. Meia-idade, um copo de whiskey. Olhos escuros, um pouco de papada. Vestia um terno preto e uma camisa branca bem passada, da qual o colarinho havia sido retirado, roupa que se destacava entre os uniformes e os tecidos de secagem rápida. Cabelo liso até as orelhas, ondulado na nuca, como se tivesse suado debaixo de um chapéu. Ou uma peruca.
Cushla subiu num banquinho para aumentar o volume da televisão. Quando desceu, o homem do whiskey batia com o polegar no filtro do cigarro, como se tivesse acabado de desviar o olhar.
As notícias começaram como sempre, uma montagem de cenas curtas. Um tumulto violento. Um menino de seis ou sete anos subindo na lateral de um tanque Saracen de transporte de pessoal para colocar pedra numa das aberturas nas quais os soldados apontavam as armas. Uma marcha em Stormont e milhares caminhando na grande avenida até o Parlamento. Acrescentou-se uma nova cena. Um único carro estacionado numa rua vazia. Parecia uma fotografia até o carro inchar e explodir, uma grande bola de fumaça e fogo, as portas foram arremessadas para longe, os vidros dos edifícios caíram no asfalto feito granizo. A vinheta terminou do mesmo modo de sempre, uma imagem de Mary Peters erguendo sua medalha olímpica.

