
Foi na Rua Grafton onde nos encontramos, perambulando numa daquelas manhãs agradáveis e preguiçosas de sábado, na primavera, depois da semana de trabalho concluída, e o fim de semana estava tão novinho quanto o ramalhete de anêmonas, que parecia ser a única compra no cesto de vime dela.
— Que surpresa boa! — eu disse, quase agarrando sua mão quando um homem carregando nos braços um monte de pacotes nos separou, e ela trocou o cesto de mão, e então nos retiramos daquela multidão para a menos agitada Rua Harry.
Não havíamos nos encontrado desde o fim da faculdade, na mesma turma de direito, há cinco anos. Soube que ficara noiva de um estudante de medicina, com quem costumava passear, e que fora trabalhar no setor privado, no interior, talvez esperando que ele concluísse a graduação.
— Veio aproveitar o fim de semana ou está de férias? — perguntei.
— Não, agora eu trabalho aqui.
Ela disse de uma grande empresa especializada em direito tributário.
— Achei que precisava de uma mudança — ela concluiu.
Vestia um terno bege e uma saia justa com abertura no joelho. O cabelo comprido e loiro da estudante agora estava bem preso num coque impecável.
— Você está diferente, mas linda como sempre foi — eu disse. — Pensei que estivesse casada.
— E você ainda passa o verão na casa dos pais? — ela perguntou, talvez por estar um pouco confusa.
— Parece que nunca vou abandonar esse mau hábito.
Tomamos um café no Bewley ‘s. O aroma dos grãos torrados escapava pelas aberturas da ventilação e saia para a Rua Grafton, misturando-se eternamente na memória daquela manhã. E então passamos o dia todo juntos, até ela, rindo, e decidida, me devolver o meu primeiro e hesitante beijo. E foi ela que calou o meu pedido de casamento, que foi ainda mais atrapalhado, umas semanas depois.
— Não — ela disse. — Não quero me casar, mas podemos morar juntos e ver o que acontece. Se não der certo, nos separamos; sem dor de cabeça.
E foi ela que encontrou o apartamento na Rua Hume, no último andar de um daqueles edifícios georgianos, e que dava para nós dois irmos a pé ao trabalho. Havia uma paz e um encanto extraordinários nas primeiras semanas juntos, que sempre vou relacioná-los com o teto alto dos cômodos, a euforia e o entusiasmo quando eu saía do escritório no final de cada dia, a demora nas ruas para comprar flores ou frutas, ou vinho ou uma tigela, e, uma vez, uma panela de cobre, a subida correndo na escada chamando seu nome, e o vazio naquele apartamento quando eu descobria que ela ainda não tinha chegado em casa.
— Por que estamos tão felizes? — eu perguntava.
— Não se preocupe — ela sempre dizia, e com um toque nos meus lábios, selava-os.
No início do verão, fomos de carro passar uma semana na cidadezinha de Kilkenny, onde ela cresceu, e dormimos em quartos separados, em cima da padaria do pai dela. No domingo, uma série de parentes chegou à casa: tias, primos, dois tios, trazendo uma caravana de crianças. A novidade logo tinha se espalhado, e todos vieram me examinar.
Trechos iniciais traduzidos por este blog. Conto integral em: https://www.newyorker.com/magazine/1980/03/17/gold-watch


