O cemitério ao lado

É fim de maio. O calor infernal passou e o inverno chegará, cansado e fraco, para uma breve visita. Às vezes, os ventiladores ainda são ligados em casa. O ar-condicionado portátil está guardado, finalmente. Nesta cidade, reclamam quando a temperatura faz uma descida passageira para os quinze graus. As ondas passageiras de frio, são tudo o que sobrou. O inverno não é mais uma estação do ano. Ou será que foi algum dia? Três meses? A sala de espera do consultório médico está cheia de gente com casaco, o ar-condicionado está desligado, o sol entra pela lateral toda envidraçada, são duas horas da tarde, e aqui dentro deve fazer uns vinte e poucos graus. Pego minha receita e volto passando pelo cemitério. Paro diante da entrada e finjo ler o aviso pendurado à parede enquanto ouço dois senhores: Vê este lugar? A melhor parte da cidade. Todos calados. E tem essas árvores e esculturas. Natureza e arte para quem tanto as desprezava. Belas árvores, não? As esculturas, mesmo sujas, são magníficas. Extraordinária é a natureza. E tão misericordiosa. Suas terras, como um coração de mãe. Após um breve silêncio, viro para os dois, que já não estão mais ali. Olho ao meu redor e quando retorno o olhar para a entrada, vejo o portão fechado. Agora presto atenção no aviso, que informa o novo horário de funcionamento do cemitério. Bato a mão no bolso traseiro da calça para me certificar de que minha receita médica está ali e sigo o caminho, com o suor escorrendo pela testa, pelas costas.

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