Querida Laila.
Um belo pôr do sol foi concedido à cidade do Cairo no dia em que você nasceu.
Pois dirigi pela nova rodovia, do extremo leste até o extremo oeste. No caminho, fileiras de palmeiras, esculpidas num céu alaranjado, preparavam-se para a manhã seguinte. A estrada é larga e flui, suavemente, sob um pôr do sol majestoso, e, ao longo dessas palmeiras, ocorreu-me uma experiência completa, porém, difícil de se ter durante as viagens, na normalidade cruel do Cairo, ao ar livre.
Como se Cairo fosse mais do que a sua realidade material atual, como se fosse um encontro da natureza e do tempo. Mas, há sim, uma crueldade nessa estrada. Essa obra recente do governo, inserida na complexa rede rodoviária, não passa de uma propaganda reminiscente de uma versão de autoritarismo, em que muita coisa é sancionada sob o pretexto de uma ideia tola de nação. Apesar disso, até parece que voamos sobre o Nilo e nos esquecemos de onde viemos e para onde vamos. Uma semana antes de você nascer, perdemos a Lauren Berlant, uma teórica cultural e autora de Cruel Optimism, que nos ensina a navegar pelas nossas cartografias emocionais levadas pelo neoliberalismo, e também nos mostra como aquilo que desejamos também nos deixa tristes. Agradeço essas vidas que sempre nos fazem questionar as realidades como uma obra finalizada.
Quando o seu pai a colocou em meus braços, apesar da minha hesitação em carregar uma recém-nascida do seu tamanho, foi como se a filha desse fantástico trabalho de procriação tivesse sido arremessada ao meu colo. Fiquei hipnotizada, comovida, inesperadamente. E você dormia despreocupadamente em meus braços, talvez, sabendo que a sua jornada estava apenas começando, e que não havia pressa. Um passo de cada vez. Extrair da sua alma os seus ancestrais e aqueles que a cercam para dar o passo seguinte. Poucos dias antes, eu havia cunhado, para mim mesma, um termo aleatório para designar a tristeza.
Durante todas as férias em família, chamei-a de luto relacionado ao nascimento, e gostei da imprecisão e da autenticidade desse qualificador de luto. Há violência ao nascer. E, talvez, um traço disso permaneça dentro de nós, tornando-se uma espécie de lente pela qual enxergamos. Um amigo chama minha atenção para a diferença entre o nascimento e a natalidade, a respeito da política desta última. Para Hannah Arendt, somos mais do que apenas nascidos, somos colocados em ação, vivemos com os outros e somos políticos.
Como essa natalidade torna-se um ato radical — conforme o despertar —, espero que você comece a convocar companhias para a sua jornada. Haverá amigos, amores, com quem você construirá, lutará, aprenderá e ensinará. Haverá pessoas de todos os tempos, algumas daqui e outras já mortas. Caminhará por cidades sólidas ou fluidas, por desertos, e por lugares que entrarão em você. Alguns serão lares comuns, outros, refúgios, onde você encontrará uma linguagem para descrever o que acontece.
Li que a linguagem se esconde no deserto. Haverá amanheceres e entardeceres únicos, que farão mais do que apenas marcar seus dias: eles manifestarão a ideia do tempo fora desse tempo comum, o que poderá lhe parecer ingênuo e inacreditável, de tal forma que o mundo inteiro será seu. No momento em que você chamar o tempo para a sua jornada, apenas preste atenção a todos os detalhes à sua volta, principalmente, àqueles que parecem simples repetições, aos quais estamos condicionados a não mais enxergar.
Uma vez, disseram-me que um sobrevivente presta atenção aos detalhes. Não tome nada como certo. Não se trata de um aviso contra as regras, mas de um convite a abrir os caminhos da curiosidade e do aprendizado, e a iniciar os seus passos com a confiança de que algo novo será revelado.
É possível que você fique perturbada com a incerteza, mas, talvez, aprenda que ela é a bússola para o conhecimento. E, ao fazer isso, ao mesmo tempo em que presta atenção e hesita, você reconhecerá o que sente e fará parte dos fragmentos e das narrativas que constrói para viver a sua vida. Quando o sentimento for demasiado, poderá voltar a dormir e a deixar o mundo dos sonhos conduzi-la.
2021
