
Trechos
Em outubro, as árvores ficaram amarelas. Depois, os relógios foram atrasados uma hora, e os ventos longos de novembro chegaram, soprando e despindo as árvores. Na cidadezinha de New Ross, a fumaça das chaminés avançava e espalhava-se em fios sinuosos, dispersando-se no cais. O rio Barrow, feito cerveja escura, logo encheu-se com as chuvas.
A maioria das pessoas encarava o clima com desgosto: donos e empregados de comércios; homens e mulheres nos correios ou na fila de auxílio a desempregados, na mercearia, no café, no supermercado, no bingo, nos pubs e nos restaurantes de peixe e batata frita para viagem — todos comentavam, cada um a seu modo, o frio e a quantidade de chuva que tinha caído, questionando o significado daquele tempo — se é que havia — pois quem seria capaz de acreditar em mais um dia com aquele frio de rachar?
As crianças punham os capuzes antes de sair para a escola, enquanto as mães, habituadas a baixar a cabeça e a correr para o varal, ou nem mesmo atrevendo-se a pendurar nada, tinham pouca esperança de conseguir, ao menos, uma camiseta seca até o fim da tarde. E, depois, chegava a noite, e as geadas tomavam conta de tudo. O frio, como lâminas afiadas, deslizava por baixo das portas e cortava os joelhos de quem ainda estivesse ajoelhado, rezando o terço.
No depósito, Bill Furlong, dono do comércio de carvão e madeira, esfregava as mãos, dizendo aos empregados que se as coisas continuassem daquele jeito, logo precisariam de pneus novos para o caminhão.
— Toda hora na estrada — disse aos funcionários. — Não demora muito e só vão sobrar as carcaças.
E era verdade. Raramente, um cliente saía do depósito antes de outro chegar, em seguida, ou de o telefone tocar. Quase todo o mundo queria uma entrega na mesma hora ou um pouco mais tarde. Próxima semana — nem pensar — seria tempo demais.
Furlong vendia carvão, turfa, antracito, madeira e lenha. Encomendava-se de cinquenta ou vinte e cinco quilos, ou um caminhão cheio. Também havia fardos de gravetos e briquetes de carvão, além de botijão de gás.
Lidar com o carvão era a parte mais árdua do trabalho. No inverno, o carvão tinha de ser buscado no cais. Levava-se dois dias inteiros para os funcionários carregar, trazer ao depósito, separar e pesar todo o carvão.
Enquanto isso, barqueiros poloneses e russos eram a novidade circulando pela cidade, com seus gorros de pele e casacos longos e abotoados, quase sem falar uma palavra de inglês.
Durante essa época bem movimentada, Furlong fez a maioria das entregas, deixando seus empregados ensacando os próximos pedidos, e cortando e dividindo os carregamentos das árvores derrubadas, trazidas pelos fazendeiros.
Nas manhãs, ouvia-se o barulho ininterrupto das serras e pás, mas, quando o sino da hora do Ângelus tocava, ao meio-dia, os trabalhadores largavam as ferramentas, lavavam a fuligem das mãos e iam até o restaurante Kehoe’s, onde comiam pratos quentes com sopa e, às sextas, peixe com batata frita.
— Saco vazio não para em pé — dizia a senhora Kehoe, atrás do bufê novo, fatiando carne, servindo legumes e purê com colheres compridas de metal.
Os homens sentavam-se alegremente, descongelando-se do frio e comendo até ficarem de barriga cheia, e, depois, fumavam o cigarro e encaravam novamente o frio lá fora.
***
Furlong, às vezes, ao observar as filhas passando por essas coisas pequenas que deviam ser feitas — a genuflexão na capela ou o agradecimento a um comerciante pelo troco —, sentia uma alegria profunda e íntima por essas filhas serem suas.
— Que sorte a nossa, né? — Comentou com Eileen, na cama, uma noite. Tem tanta gente por aí sem dinheiro.
— A gente tem sorte, com certeza.
— Não é que temos muito — disse ele. — Mas mesmo assim…
A mão de Eileen empurrou lentamente uma dobra da colcha.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele levou um tempo para responder.
— O menino do Mick Sinnott estava hoje de novo na estrada catando gravetos.
— E você parou?
— Não estava aquele pé d’água. Parei, ofereci uma carona e dei uns trocados que estavam no meu bolso.
— Sei, sei.
— Você acha que dei umas cem libras para ele.
— Você sabe que essas coisas dificultam a vida deles mesmos. O Sinnott estava bêbado no orelhão, na terça.
— Coitado — disse Furlong —, nem imagino por que ele sofre.
— De bebida, ele sofre de bebida. Se ele tivesse alguma consideração com os filhos, ele não andaria por aí desse jeito. Ele saía dessa.
— Talvez ele não consiga.
— Sei, sei.
Ela esticou-se, suspirando, e apagou a luz.
— Sempre tem alguém que precisa fazer o trabalho duro.
Algumas noites, Furlong ficava deitado com Eileen, repassando coisas pequenas como essas. Outras vezes, depois de um dia carregando peso ou atrasando-se por causa de um pneu furado, todo molhado debaixo de chuva, na estrada, ele voltava para casa, comia até se fartar e caía na cama cedo, e depois acordava de noite, e via Eileen dormindo profundamente, ao seu lado. E lá estava ele e seus pensamentos em círculos, agitado, antes de, finalmente, levantar-se e colocar água na chaleira para o chá. De pé, à janela, segurando a xícara, olhava para as ruas e para o que conseguia enxergar do rio, as pequenas cenas: cães de rua revirando lixos, procurando restos de comida; sacos plásticos e latas vazias levados pelo vento forte e pela chuva; os últimos bêbados dos pubs, aos tropeços, voltando para casa. Às vezes, cantavam um pouco; em outras, Furlong ouvia um assobio agudo e uma risada, que o deixavam nervoso. Imaginava suas filhas crescendo e saindo naquele mundo de homens. Já percebera os olhares masculinos acompanhando as suas filhas.
Em algum lugar na sua cabeça, havia uma tensão frequente, que ele não conseguia explicar. Perder tudo o que tinha, seria a coisa mais fácil do mundo, Furlong sabia disso. Embora não se atrevesse a ir longe, andava por aí. E já observara muitos desgraçados pela cidade e pelas estradas.
A fila dos desempregados ficava cada vez mais longa, com homens que não conseguiam pagar a conta de luz e moravam em casas tão frias quanto um abrigo subterrâneo, e dormiam com casacos. Na primeira sexta-feira do mês, as mulheres, enfileiradas ao lado do muro dos correios, carregavam sacolas de compras e esperavam receber o auxílio do governo para os filhos.
Mais distante da cidade, ele sabia das vacas largadas berrando para serem ordenhadas, pois o homem que cuidava delas havia ido embora, repentinamente, e pegado um barco para a Inglaterra.
Certa vez, deu carona a um homem até a cidade para que pagasse as contas. Ele disse que teve de vender o Jeep, porque não conseguia dormir só de pensar o quanto devia e que banco logo iria cobrá-lo
Numa manhã, bem cedo, Furlong viu um jovem estudante bebendo leite da tigela do gato, bem atrás da casa do padre.
Enquanto fazia as entregas, Furlong não gostava muito de ouvir o rádio, mas, às vezes, ouvia as notícias.
Era 1985, e os jovens estavam emigrando para Londres, Boston e Nova York. Um aeroporto havia acabado de ser inaugurado em Knock. Charlie Haughey, o primeiro-ministro, fez questão de ir pessoalmente e cortar a fita da inauguração.
O Taoiseach, primeiro-ministro, assinara um acordo com a Margaret Thatcher sobre O Norte, e, os Unionistas, em Belfast, protestavam com tambores contra qualquer coisa que Dublin dissesse a respeito de seus assuntos.
Em Cork e Kerry, as multidões estavam esvaziando-se, mas alguns ainda se reuniam nos santuários, com a esperança de que alguma das estátuas se movesse novamente. [Nota: em 1985, houve o “ano das estátuas em movimento”, no país.]
Em New Ross, o estaleiro foi fechado, e a Albatroz, a grande fábrica de fertilizantes, do outro lado do rio, fez muitas demissões.
A Bennett’s demitira onze funcionários, e a Graves & Co., onde Eileen trabalhara, e que parecia existir desde sempre, fechara as portas.
A senhorita Kenny, a florista, cuja loja ficava perto do depósito de carvão, certa noite, pedira a um dos empregados de Furlong que segurasse firme o compensado para que ela colocasse os pregos no compensado, fechando, assim, a janela.
Eram tempos difíceis, contudo Furlong sentia-se ainda mais determinado a seguir em frente, mantendo a cabeça baixa e permanecendo ao lado bom das pessoas, e a continuar sustentando suas filhas, vendo-as progredindo e concluindo os estudos na Santa Madalena, a única escola boa para meninas na cidade.
***
As coisas nunca mudam nem se transformam em algo novo? Ultimamente, ele começou a questionar-se a respeito do que lhe era importante, sem considerar Eileen e as meninas.
Estava perto dos quarenta, mas não se sentia chegando a algum lugar ou fazendo qualquer tipo de progresso, e, às vezes, perguntava-se de que valia todos esses dias. De repente, lembrou-se de um emprego em uma empresa de cogumelos, em um verão, quando estava de férias do colégio técnico. No primeiro dia, fez o melhor para manter o ritmo na linha de corte, mas, em comparação com os outros, estava devagar. Quando terminou, suado, parou e olhou para trás, na linha, até o ponto onde havia começado, e lá via os cogumelos pequenos já começando a brotar na compostagem, novamente. Seu coração apertou, sabendo que a mesma coisa aconteceria novamente, dia após dia, durante todo o verão.
***
Por um momento, ele resistiu a uma necessidade forte e tola de discutir isso com Eileen, mas ela se animou e começou a partilhar a notícia que trouxera da praça: o agente funerário de meia-idade, que as pessoas diziam que nunca se casaria, pedira uma jovem garçonete em casamento, com metade da sua idade, e que trabalhava no hotel Murphy Flood’s, em Enniscorthy, e a levou para a cidade e comprou o anel mais barato da Forristal’s. O filho do barbeiro, um jovem eletricista que ainda cumpria pena, havia sido diagnosticado com um tipo raro de câncer e tinha menos de um ano de vida. Circulava a informação de que vários outros funcionários da Albatros seriam demitidos depois do Natal. As pessoas diziam que o circo talvez chegasse à cidade, dessa vez, no início do ano novo. A chefe dos correios dera à luz trigêmeos, todos meninos, mas isso era notícia de ontem. Ela também ouvira falar que os Wilson haviam vendido todo o gado e que tinham ficado só com alguns cachorros, que toda a terra agora fora arrendada, e que Ned estava com um pouco de bronquite. Quando a conversa acabou, Eileen pegou o Sunday Independent e deu-lhe uma sacudida.
***
Permaneceu sentado, ouvindo o tique-taque do relógio em cima do console da lareira e o vento soprando na chaminé de um jeito sinistro. A chuva voltara a cair, e batia com força na vidraça, fazendo a cortina se mexer. De dentro do fogareiro, ele ouvia um pedaço de carvão caindo sobre outro, e colocou mais um pouco.
Em algum momento, a necessidade de dormir tomou conta dele, mas se obrigou a continuar sentado, cochilando e acordando, até que o ponteiro do relógio batesse três horas e que uma agulha de tricô, enfiada no meio da torta de Natal, saísse limpa.
***
Elas também administravam uma lavanderia. Sabia-se pouco sobre o liceu, mas a lavanderia tinha boa reputação: restaurante e pensão, a casa de repouso e o hospital, todos os padres e as famílias abastadas mandavam suas roupas para lá. Dizia-se que tudo o que era enviado, fosse uma montanha de roupas de cama ou apenas uma dúzia de lenços, voltava como novo. Havia também um boato sobre o lugar. Alguns diziam que as moças do liceu, como eram conhecidas, não eram estudantes, mas garotas de baixa reputação que passavam por uma reforma interior, cumprindo penitência, lavando roupas sujas, trabalhando desde o amanhecer até a noite. Uma enfermeira disse, certa vez, que foram chamadas para tratar de uma garota de quinze anos com varizes por ficar tanto tempo parada junta à pia. Outros alegavam que eram as próprias freiras que se matavam de trabalhar, tricotando suéteres e produzindo rosários para exportar. E que não tinham permissão para falar, apenas para orar, e que algumas eram alimentadas com nada além de pão e manteiga durante metade do dia, mas que tinham uma refeição quente no jantar, depois de terminarem o trabalho. Outros juravam que o lugar era simplesmente uma casa para mães e bebês, onde moças comuns e solteiras iam ficar escondidas depois de darem à luz, e diziam que era a própria família que as mandavam para lá, depois de seus legítimos filhos serem adotados por americanos ricos, ou serem enviados para a Austrália. E que as freiras faziam um bom dinheiro ao enviar os bebês para o exterior, e que isso era um negócio delas.
Mas as pessoas diziam muitas coisas — e boa parte do que era dito era difícil de acreditar; nunca houve escassez de mentes ociosas ou de fofocas a respeito da cidade. Furlong não gostava de acreditar em nada disso, contudo, uma tarde, tinha ido ao convento com um carregamento antes do previsto e, não tendo visto ninguém na entrada, caminhou e passou pelo galpão de carvão, que ficava na outra ponta do prédio, e deslizou o trinco de uma porta pesada e a empurrou, encontrando um lindo pomar, cujas árvores estavam carregadas de frutas: maçãs vermelhas e amarelas, e pêras. Teve vontade de roubar uma pêra cheia de pintinhas, mas assim que sua bota tocou a grama, um bando de gansos bravos correu atrás dele. Ao recuar, eles ficaram na ponta dos pés e bateram as asas, esticando o pescoço em triunfo e grasnando para ele. Seguiu para uma pequena capela iluminada, onde encontrou mais de uma dúzia de moças e meninas, de joelhos, com latas antigas de cera de lavanda e trapos, lustrando o piso em círculos com todo o vigor. Assim que o viram, pareciam ter sido escaldadas — ele apenas perguntara pela irmã Carmel. Nenhuma delas estava com sapatos, somente meias pretas e um uniforme cinza horrível. Uma garota tinha um terçol repulsivo no olho, outra tinha o cabelo cortado de modo grosseiro, como se um cego lhe tivesse passado a tesoura. Foi esta que se aproximou dele.
— O senhor não quer ajudar?
Furlong recuou.
— Me leve até o rio. Faça só isso.
Ela falava seriamente, com sotaque de Dublin.
— Para o rio?
— Ou me deixe do lado de fora do portão.
— Não depende de mim, moça. Não posso te levar para lugar nenhum — disse Furlong, mostrando-lhe as mãos abertas e vazias.
— Me leve para casa com você, então. Eu me mato de trabalhar para o senhor, se quiser.
— Tenho cinco filhas e uma esposa em casa.
— Eu não tenho ninguém. E quero é me afogar. Você não pode nem fazer isso para a gente?
De repente, ela caiu de joelhos e começou a lustrar — e Furlong se virou para ver uma freira, parada no confessionário.
— Irmã — disse Furlong.
— Posso te ajudar?
— Estou procurando a irmã Carmel.
— Ela foi para lá da Santa Madalena. Talvez eu possa ajudar o senhor.
— Eu trouxe as toras de madeira e o carvão, irmã.
Assim que ela percebeu quem ele era, ela mudou.
— Foi você que estava no gramado incomodando os gansos?
Furlong, sentindo-se estranhamente castigado, parou de pensar na moça e seguiu a freira até a entrada, onde ela olhou a lista de itens e inspecionou a carga para ter certeza de que correspondia ao pedido. Ela, então, deixou-o, voltando para dentro, enquanto ele colocava o carvão e as toras no galpão, antes de voltar à entrada para pagá-lo. Ele a estudou, enquanto ela contava o dinheiro — ela o fez pensar em um pônei forte e mimado, a quem fora abandonado por conta própria. O impulso para falar alguma coisa sobre a moça cresceu, porém desapareceu e, enfim, ele apenas assinou o recibo e o entregou. Ao entrar no caminhão, fechou a porta e dirigiu. Mais adiante, na estrada, percebeu que esquecera de virar e estava indo na direção errada, com o pé fundo no acelerador, e disse a si mesmo para desacelerar e ir com calma. Ficou imaginando as moças de joelhos, lustrando o chão, e o estado em que se encontravam. O que o impressionou também foi o fato de que, ao seguir a freira na volta da capela, notou um cadeado do lado de dentro da porta, e que, em cima do muro alto, separando o convento da Santa Madalena, havia cacos de vidros. Pensou também em como a freira fechara a porta da frente com a chave depois de sair apenas para pagar.
Um nevoeiro caía, pairando em longas camadas e tiras, e não havia espaço na estrada sinuosa para virar, então Furlong virou à direita em uma estrada secundária e, mais adiante, virou novamente à direita em outra estrada, que ficou mais estreita. Depois de dar outra volta e passar por um galpão de feno, que não sabia se já tinha passado por ele, encontrou uma cabra solta, arrastando uma corda curta, e se deparou com um velho de colete e facão, cortando um monte de cardos secos na beira da estrada. Furlong levantou-se e deu boa noite ao homem.
— O senhor sabe para onde vai essa estrada?
— Essa estrada? — O homem abaixou o facão, apoiando-se no cabo e olhou para ele. — Essa estada vai para o lugar que você quiser, meu filho.
***
Essa noite, na cama, Furlong pensou se contava ou não para Eileen o que testemunhou no convento, e quando contou, ela sentou-se rígida e lhe disse que essas coisas não diziam respeito a eles, que não havia nada que pudessem fazer, e que aquelas moças precisavam de um lugar aquecido, como todo o mundo. Disse que as freiras pagavam sempre o que deviam no prazo, diferente de muitos, que pediam fiado até começarem a ser cobrados, então começavam os problemas. Foi um discurso longo.
— O que você sabe disso? — Perguntou Furlong.
— Nada, só o que estou contando. E, de qualquer jeito, o que isso tem a ver com a gente? Nossas filhas não estão todas bem e cuidadas?
— Nossas filhas? — Perguntou Furlong. — O que isso tem a ver com nossas filhas?
— Nada — ela respondeu. — Devemos agir para quê?
— Bem, não pensei que devíamos, mas depois de escutar você, agora não tenho certeza.
— E pensar nisso nos leva aonde? — Perguntou ela. — Pensar nisso tudo leva você para baixo.
Agitada, ela mexia os pequenos botões perolados da camisola.
— Se você quer progredir na vida, tem coisas que você deve ignorar para seguir em frente.
— Não estou discordando de você, Eileen.
— Concordar ou discordar. Você tem o coração mole, isso sim. Dar o trocado que tem no bolso e…
— O que você tem essa noite?
— Nada, só o que você não percebe. Não foi muito diferente das dificuldades em que você foi criado?
— Qual dificuldade, exatamente?
— Bem, tem meninas por aí que se metem em encrenca, você sabe.
Foi um golpe baixo, mas o primeiro vindo dela em todos os anos juntos. Algo pequeno e duro ficou entalado em sua garganta, que ele tentou, mas foi incapaz de expressar ou engolir. Por fim, ele não encontrou palavras para aliviar o que havia entre eles.
— Eu não deveria ter falado aquilo para você, Bill — amenizou Eileen. — Mas se cuidarmos só do que temos aqui e ficarmos do lado certo das pessoas e seguirmos unidos, nenhum de nós jamais terá que suportar o que aquelas meninas sofrem. Elas foram colocadas lá porque não tinha uma alma nesse mundo para cuidar delas. Foram criadas selvagens, e quando se meteram em problemas, a família virou as costas. Só pessoas sem filhos podem se dar ao luxo de ser descuidadas.
— Mas e se fosse uma das nossas filhas? — Perguntou Furlong.
— É exatamente o que estou dizendo — disse ela, levantando-se novamente. — Não é uma de nossas filhas.
— Que bom que a senhora Wilson não compartilha as mesmas ideias suas, não é mesmo? — Furlong olhou para ela. — Para onde foi minha mãe? Onde eu estaria agora?
— As preocupações da senhora Wilson não eram muito diferentes das nossas? — Perguntou Eileen. — Sentada naquele casarão com a pensão e uma granja, com sua mãe e o Ned trabalhando para ela. Ela não era uma das poucas mulheres daqui que poderia fazer o que queria?
***
Por algum tempo, ele ficou ouvindo e olhando para a cidade lá embaixo, para a fumaça que subia das chaminés e para as pequenas estrelas que se encolhiam no céu.
Uma das mais brilhantes caiu enquanto ele estava ali parado, deixando um rastro, como uma marca de giz em uma placa, durante um segundo antes de desaparecer. Outra parecia queimar e desaparecer lentamente.
Quando deixou a caçamba do caminhão aberta e foi abrir a porta do galpão de carvão, a tranca estava congelada, e ele se perguntou se não havia se tornado um homem condenado às portas, pois passou a maior parte da vida do lado de fora, esperando que as portas lhe fossem abertas.
Assim que ele forçou a tranca, percebeu que tinha algo lá dentro. Foram muitos os cachorros que encontrou em galpões de carvão, porque não tinham um lugar decente para deitar-se.
Não conseguia enxergar direito e foi obrigado a voltar ao caminhão para pegar uma lanterna.
Quando iluminou lá dentro, no chão, julgou que a garota havia estado ali durante toda a noite.
— Meus Deus! — Disse ele.
A única coisa que pensou em fazer foi tirar seu casaco. Quando ele foi colocá-la nela, ela se encolheu.
— Não tenha medo — Furlong explicou. — Eu acabei de chegar com o carvão, minha filha.
Sem rodeios, ele iluminou novamente o chão, sobre os excrementos que ela teve de fazer ali.
— Que Deus te abençoe, menina. Vamos sair daqui.
Quando conseguiu tirá-la de lá e viu o que estava diante dele — uma garota que quase não parava em pé, com o cabelo cortado grosseiramente —, o seu lado de pessoa comum gostaria que nunca tivesse chegado perto desse lugar.
— Está tudo bem — disse ele. — Se apoie em mim.
A garota parecia não o querer, mas ele conseguiu levá-la até o caminhão, onde ela se recostou no calor do capô e olhou para as luzes da cidade e para o rio, depois para longe, como ele mesmo tinha feito, para o céu.
— Estou do lado de fora agora — ela conseguiu falar, depois de um tempo.
— Sim.
Furlong a cobriu um pouco mais com o casado. Agora, ela parecia não se incomodar.
— É noite ou dia?
— É de manhã cedo — respondeu Furlong. — Logo vai clarear.
— Aquele é o rio Barrow?
— É. Tem salmão e uma grande correnteza.
Por um momento, ele não teve certeza se ela era a mesma garota que tinha visto na capela, no dia dos gansos — essa era diferente.
Ele apontou a lanterna para os pés dela, viu as unhas compridas, pretas de carvão, depois desligou-a.
— Como você foi deixada lá?
Ela não lhe respondeu, e ele percebeu o que ela sentia, e buscou algo reconfortante para dizer-lhe.
Após um tempo, durante o qual algumas folhas congeladas se espalharam pelo cascalho, ele se recompôs e a ajudou até a porta da frente.
Embora uma parte dele se perguntava o que estava fazendo, ele continuou, como era de costume, e sentiu-se fortalecido ao apertar a campainha, e então se hesitou ao ouvi-la tocar.
Logo a porta se abriu e uma jovem freira olhou para fora.
— Ah! — Deixou escapar um gritinho e rapidamente o calou.
A garota ao seu lado não disse nada, somente olhava para a porta.
— O que está acontecendo aqui? — Questionou Furlong.
Quando novamente a garota ficou calada, ele procurou outra coisa para dizer-lhe.
Por um bom tempo, esperaram ali no frio, no degrau da entrada.
Ele poderia tê-la levado, sabia disso, e pensou levá-la para a casa do padre ou para a casa dele — mas ela era tão pequena e calada, e, mais uma vez, o seu lado de pessoa comum só queria livrar-se disso tudo e voltar para casa.
Mais uma vez, esticou o braço e tocou a campainha.
— Não vai perguntar para eles sobre meu bebê?
— O quê?
— Ele deve estar com fome — disse ela.
— E quem está lá para dar comida para ele?
— Ele tem catorze semanas. Elas o tiraram de mim, mas talvez me deixem dar comida para ele de novo, se ele estiver aqui. Eu não sei onde ele está.
Furlong começou a pensar o que fazer quando a Madre Superiora — uma mulher alta que ele reconheceu da capela, mas com quem raramente lidava — escancarou a porta.
— Senhor Furlong — disse ela, sorrindo. — Que bom que veio dar um pouco do seu tempo, tão cedo nessa manhã de domingo.
— Madre — disse Furlong —, é cedo, eu sei.
— Lamento que o senhor tenha encontrado isso — disse ela, antes de voltar-se à jovem.
— Onde você estava? — Perguntou ela, diferente agora. — Não demoramos muito para descobrir que você não estava na sua cama. Estávamos prestes a ligar para a polícia.
— Essa garota ficou trancada no galpão a noite toda — Furlong disse. — Sei lá como foi parar lá.
— Que Deus a abençoe, filha. Venha e vai tomar um banho quente. Essa coitada, às vezes, não sabe a diferença entre noite e dia. Não sei como vamos fazer para cuidar dela.
A garota estava em uma espécie de transe e começou a tremer.
— Entre — disse a Madre Superiora. — Vamos fazer um chá. Que assunto desagradável.
— Ah, não vou entrar — Furlong deu um passo para trás, como se isso pudesse levá-lo para um tempo que já acabara.
— Venha, entre — disse ela. — Não vou aceitar sua recusa.
— Estou com pressa, Madre. Preciso voltar para casa e me arrumar para a missa.
— Então, entre até a pressa ir embora. Ainda é cedo, e hoje tem mais de uma missa.
Furlong tirou o gorro e entrou, como lhe foi pedido, ajudando a garota pelo corredor, indo até a cozinha dos fundos, onde duas garotas descascavam nabos e lavavam cabeças de repolho em uma pia.
A jovem freira que atendera a porta estava em pé, em frente a um enorme fogão preto, mexendo alguma coisa, e tinha uma chaleira fervendo.
O lugar todo e tudo o que havia nele estava brilhando, imaculado: em alguns potes pendurados, Furlong vislumbrou uma versão de si mesmo, de passagem.
A Madre não parou, continuou por um corredor de azulejos.
— Por aqui.
— Estamos deixando marcas no chão da senhora, Madre — Furlong ouviu de si mesmo.
— Não tem importância — disse ela. — Onde há sujeira, há sorte.
Ela os conduziu a uma bela e grande sala, onde um fogo recém-aceso ardia em uma lareira de ferro fundido. Uma mesa comprida, coberta com um pano branco como a neve, rodeada de cadeiras, e um aparador de mogno com livreiros envidraçados.
Pendurado sobre a lareira, uma foto de João Paulo II.
— Sente-se perto da lareira e se aqueça — disse ela, dando-lhe o casaco. — Vou cuidar dessa garota e ver nosso chá.
Ela saiu, fechando a porta, e, logo em seguida, uma jovem freira entrou trazendo uma bandeja. As mãos dela não estavam firmes, e uma colher caiu.
— Você deve estar esperando visita — disse Furlong.
— Outra visita? — Ela pareceu nervosa.
— É só um ditado — explicou Furlong —, quando uma colher cai.
— Ah, sim — disse ela e olhou para ele.
Ela continuou, o melhor que pôde, colocando as xícaras e os pires, mas teve dificuldades para retirar a tampa de uma lata antes de erguer a fatia do bolo de frutas que ela cortou rapidamente com uma faca.
Ao voltar, a Madre Superiora aproximou-se lentamente da lareira, alcançando as lenhas e as atirando ao fogo, juntando habilmente os pedaços em brasa e envolvendo-os com as lenhas novas tiradas do balde, as que foram trazidas por Furlong, antes de sentar-se na poltrona oposta.
— Então, está tudo bem na sua casa, Billy? — Ela começou.
Os olhos dela eram entre um azul e um cinza.
— Tudo bem com a gente, obrigado, Madre.
— E suas filhas? Como estão? Ouvi falar que duas delas estão progredindo aqui nas aulas de música. E você tem outras duas aqui ao lado.
— Elas estão indo bem, graças a Deus.
— E nós temos outra filha sua agora no coral. E ela parece bem enturmada.
— Elas se viram muito bem.
— Logo elas vão estar aí ao lado, se Deus quiser.
— Se Deus quiser, Madre.
— E hoje em dia tem tantas por aí. Não é fácil achar um lugar para cada uma.
— Com certeza.
— São cinco ou seis, que você tem?
— Temos cinco, Madre.
Ele levantou-se e retirou a tampa do bule de chá, mexendo as folhas.
— Mas deve ser decepcionante, mesmo assim.
Ela voltou-se para ele.
— Decepcionante? — Questionou Furlong. — Como assim?
— Por não ter nenhum menino para seguir com o nome.
Ela referiu-se à sua loja, mas Furlong, que tinha vasta experiência nesse tipo de conversa, estava em terreno conhecido. Ele espreguiçou-se um pouco e deixou sua bota tocar a proteção da lareira de latão polido.
— Eu mesmo fiquei com o nome da minha mãe, Madre. E nada de ruim aconteceu comigo.
— É assim mesmo.
— O que eu tenho contra meninas? — Continuou ele. — Minha própria mãe já foi uma. E ouso dizer que o mesmo vale para a senhora e metade das pessoas das nossas famílias.
Então, houve uma pausa, e Furlong sentiu que ela não estava tão dissuadida a mudar o rumo da conversa. A porta se abriu e a garota do galpão foi trazida, vestindo blusa cardigã e saia plissada, de sapatos, com os cabelos molhados e mal penteados.
— Foi rápida — Furlong levantou-se um pouco. — Você está melhor agora, minha filha?
— Venha, sente aqui — a Madre puxou uma cadeira para ela. — Tome um pouco de chá e coma bolo, se aqueça.
A jovem sentou-se à mesa e, desajeitadamente, começou a pegar os pedaços de fruta do bolo e a engolir o resto com o chá quente, mas brigou com a xícara, tentando recolocá-la no pires.
Por um momento, a Madre Superiora iniciou uma conversa fiada sobre as novidades e as coisas mais banais, antes de virar-se:
— Pode nos dizer por que você estava do galpão de carvão? — Perguntou ela. — Você precisa nos contar. Não vai acontecer nada com você.
A garota ficou paralisada na cadeira.
— Quem colocou você lá?
O olhar assustado da jovem passou por toda parte, tocou brevemente o de Furlong antes de cair de volta à mesa e nas migalhas do prato dela.
— Elas me esconderam, Madre.
— Esconderam você?
— Estávamos só brincando.
— Brincando? Brincado de quê? Pode nos contar?
— Só brincando, Madre.
— De esconde-esconde, ouso dizer. Na idade de vocês. Elas não pensaram em deixar você sair depois que a brincadeira acabou?
A garota desviou o olhar e soltou um soluço estranho.
— O que está acontecendo com você, filha? Isso tudo não foi um engano? Isso tudo não foi nada?
— Sim, madre.
— O que foi?
— Não foi nada de mais, Madre.
— Você só levou um susto, foi isso. Agora você precisa de um café da manhã e dormir bastante.
Ela olhou para a jovem freira que ficou o tempo todo parada como uma estátua na sala e assentiu.
— Você não pode fritar alguma coisa para essa garota? Leve-a para a cozinha e deixe que coma à vontade. E providencie para que hoje ela fique ociosa.
Furlong observou a garota sendo levada e logo entendeu que a madre queria que ele fosse embora — mas o anseio de ir embora ia sendo substituído por uma certa contrariedade de permanecer e manter sua posição. Lá fora, o dia já começava a clarear.
Logo, tocariam os sinos da primeira missa. Ele sentou-se, encorajado por essa nova força estranha. Afinal, era um homem no meio de mulheres.
— O Natal chegou tão rápido, no fim das contas — ele desconversou.
— Chegou mesmo.
Ele teve de reconhecer o mérito dela, que estava com a cabeça fria.
— Você deve ter ouvido a previsão de neve.
— Ainda podemos ter um Natal com neve, e são mais negócios para o senhor.
— Estamos sempre ocupados com trabalho — disse Furlong. — Não posso reclamar.
— Está satisfeito ou gostaria de mais chá?
— Acho que é melhor bebermos tudo, Madre — persistiu ele, estendendo a xícara.
A mão que servia estava firme.
— Seus barqueiros estiveram essa semana na cidade?
— Eles não são meus, mas tivemos um carregamento lá no cais, sim.
— Você não se importa de trazer esses estrangeiros para cá?
— Todo mundo nasce em algum lugar — disse Furlong. — Jesus nasceu em Belém.
— Eu não compararia Nosso Senhor a esses sujeitos.
Agora, aquilo bastava para ela. Enfiou a mão no fundo do bolso e tirou um envelope.
— Vou aguardar a fatura pelo que devo, mas aqui tem um pouco para o Natal.
Relutante a pegá-lo, Furlong o alcançou com a mão.
Ela o acompanhou até a cozinha, onde estava a jovem freira diante de uma frigideira, quebrando um ovo de pato ao lado de duas rodelas de chouriço.
A garota do galpão de carvão estava sentada à mesa em uma espécie de aturdimento, sem nada diante de si.
Esperavam que ele continuasse, Furlong sabia, mas ele se deteve, contrariado, e ficou ao lado da garota.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer para você, filha? — Ele perguntou. — Só precisa me falar.
Ela olhou para a janela, respirou fundo e começou a chorar, como fazem aqueles que não estão acostumados a qualquer tipo de bondade quando a encontram pela primeira vez ou depois de muito tempo.
— Você não vai me dizer o seu nome?
Ela olhou de volta para a freira.
— Aqui, me chamo Enda.
— Enda? — Furlong indagou. — Não é nome de menino?
Ela não estava em condições de responder.
— Mas qual é o seu nome de verdade? — Perguntou Furlong, gentilmente.
— Sara — respondeu ela. — Sara Redmond.
— Sara — disse ele. — É o nome da minha mãe. E de onde você é?
— Minha família fica para lá de Clonegal.
— É passando Kildavin, não é? — Perguntou ele. — Como você veio parar aqui?
A freira, que estava no fogão, tossiu e bateu a frigideira com força, e Furlong entendeu que a moça não podia dizer mais nada.
— Bem, agora você está abalada, e dá para entender. Mas, meu nome é Bill Furlong e eu trabalho no depósito de carvão, perto do cais. Qualquer coisa que você precisar, é só ir lá ou mandar me chamar. Estou lá todos os dias, menos de domingo.
A freira preparava o ovo e o chouriço, raspando a margarina de um grande frasco, fazendo barulho, e passando-a em um pedaço de torrada.
Decidido a não dizer mais nada, Furlong saiu e fechou a porta, depois ficou em pé no degrau da frente até ouvir alguém lá dentro girar a chave.
***
Ao atravessar a ponte, ele olhou para o rio, para as águas que passavam. As pessoas diziam que uma maldição havia sido lançada sobre o rio Barrow. Furlong não se lembrava muito disso, mas que tinha a ver com uma ordem de monges que lá construíram uma abadia e tiveram o direito de cobrar pedágio no rio. Com o passar do tempo, eles se tornaram avarentos, e o povo se rebelou e os expulsou da cidade. Quando estavam indo embora, o abade lançou uma maldição sobre a cidade, de modo que a cada ano ela tiraria exatamente três vidas, nem uma a mais, nem uma a menos. A sua mãe acreditava que havia alguma verdade nisso. Certa vez, contara-lhe sobre um comerciante de gado que ela conhecia, que perdera o controle do caminhão e saíra da estrada, na véspera de Ano Novo, e como esse homem perdera a vida, o terceiro afogamento naquele ano. Às vezes, ela costumava segurá-lo com um de seus braços fortes e sardentos, enquanto, com outro, girava a manivela da batedeira. Costumava encostar a cabeça ao lado da vaca e cantar uma ou duas canções enquanto ordenhava, com Ned, à noite, para facilitar a descida do leite. Às vezes, ela também lhe dava uns tapas quando ficava atrevido, como falar fora de hora ou deixar a tampa do pote de manteiga aberta, mas essas eram coisas pequenas.
Furlong continuou inquieto, pensando na garota de Dublin que lhe pedira para levá-la até aqui, para que ela pudesse se afogar, e em como ele a recusara. Pensando em como, depois, perdera-se pelas estradas secundárias; e no velho estranho que estava cortando os cardos na neblina, naquela noite, com a foice, e no que ele dissera sobre como a estrada o levaria para onde ele quisesse ir.
Quando chegou à margem mais distante do rio, ele continuou a caminhar, subindo a colina, passando por outros tipos de casas com velas acesas e belas poinsétias vermelhas nas salas da frente, casas que ele nunca tinha visto antes, apenas do lado de fora da porta dos fundos. Em uma delas, um jovem rapaz, vestindo um blazer, estava sentado ao piano, enquanto uma mulher elegantemente vestida, segurando um copo de haste longa, estava ao seu lado, ouvindo.
Em outra casa, um homem de aparência preocupada estava debruçado sobre uma escrivaninha, anotando coisas, como se estivesse fazendo cálculos difíceis, tentando equilibrar as contas.
Em outra, um menino em um cavalo de balanço cavalgava num tapete grosso de lã. Uma garota com o uniforme da Santa Madalena estava sentada em um sofá de veludo, e Furlong se indagou a respeito do fato de ela usá-lo fora dos períodos escolares, talvez ela tivesse vindo do ensaio do coral.
Ele continuou caminhando, subindo a colina, passando pelas casas iluminadas e pelos postes de luz.
Agora na escuridão e no silêncio, ele deu uma volta pelo lado de fora do convento, fazendo uma avaliação do local. Os muros enormes e altas ao redor dos fundos também estavam cobertos de cacos de vidro, ainda visíveis, em alguns pontos, sob a neve. Não era possível ver a entrada, e as janelas do terceiro andar foram escurecidas e tinham grades de metal. Ele continuou se sentindo como um animal noturno à espreita e caçando, com uma espécie de excitação correndo em seu sangue. Ao virar uma esquina, deparou-se com um gato preto comendo a carcaça de um corvo, lambendo ao redor da boca. Ao vê-lo, o gato ficou paralisado e depois fugiu pela cerca.
Quando foi para a entrada principal, passando pelos portões abertos e subindo a entrada da garagem, os teixos e as sempre-vivas estavam lindos, parecia um quadro, exatamente como as pessoas haviam dito, com frutos nos arbustos de azevinho. Havia apenas um rastro de pegadas na neve, seguindo em direção oposta, e ele alcançou e passou facilmente pela porta da frente sem encontrar ninguém. Quando chegou à entrada e deu a volta até o portão do galpão de carvão, a necessidade de abri-la passou, estranhamente, mas logo voltou, e então ele deslizou o ferrolho, chamou o nome dela e disse o seu. Ele havia imaginado, enquanto estava no barbeiro, que a porta poderia estar trancada ou que ela, felizmente, não estaria lá dentro, ou que ele teria de carregá-la durante parte do caminho, e se perguntou como o faria, se conseguisse, ou o que faria, ou se faria alguma coisa, ou se sequer teria vindo até aqui – mas tudo estava exatamente como ele temia, embora a garota, dessa vez, tenha pegado seu casaco e parecesse feliz em se apoiar nele enquanto ele a levava para fora.
— Agora, você vai vir comigo para casa, Sara.
Com bastante facilidade, ele a ajudou a descer a colina, passando pelas casas elegantes e indo em direção à ponte. Ao cruzar o rio, os olhos dele voltaram a fixar-se na água escura e encorpada que fluía de um jeito sombrio – uma parte dele invejava o conhecimento do rio Barrow sobre seu curso, a facilidade com que a água seguia seu caminho incorrigível, tão livremente para o mar aberto.
O ar estava mais frio agora. Ele sentiu a luta entre sua autopreservação e sua coragem, e pensou, mais uma vez, em levar a garota para a casa do padre, mas concluiu que todos os padres já sabiam. A Sra. Kehoe não havia lhe dito isso? São todos iguais.
Enquanto caminhavam, Furlong encontrou pessoas que ele conhecia e com as quais lidara durante a maior parte de sua vida. De bom grado, parou e conversou com a maioria dessas pessoas até que essas, olhando para baixo, enxergavam os pés descalços e pretos da garota, e então percebiam não se trata de uma de suas filhas. Algumas os deixavam de lado ou conversavam de forma esquisita, ou, educadamente, desejavam a ele um Feliz Natal e seguiam em frente. Uma senhora idosa, que passeava com um terrier numa coleira comprida, confrontou-o, perguntando-lhe quem era a moça, e se ela não era uma daquelas mulheres da lavanderia.
Em outro momento, um menino olhou para os pés de Sara, riu e a chamou de suja, antes que seu pai desse um puxão em sua mão e o mandasse calar a boca. A senhorita Kenny, usando roupas velhas que ele nunca tinha visto antes e com hálito de bebida, parou e perguntou o que ele estava fazendo com uma criança, na neve, sem sapatos, presumindo que Sara era uma de suas filhas, e saiu andando.
Nenhuma pessoa que eles encontraram se dirigiu a Sara nem perguntou para onde ele a estava levando. Sentindo pouca ou nenhuma obrigação de dizer muito ou de explicar-se, Furlong minimizou as coisas da melhor maneira que pôde e seguiu em frente, com empolgação em seu coração, combinada com o medo que ele ainda não podia ver, mas sabia que encontraria.
Quando estavam aproximando-se do centro da cidade e das luzes de Natal, ele pensou em recuar e pegar o caminho mais longo para casa, mas se desafiou e continuou, seguindo o caminho que normalmente tomaria. Parecia que estava chegando uma mudança para a menina. Ela teve que parar e vomitar na rua.
— Isso mesmo, menina — encorajou-a. — Põe tudo para fora. Tira essas coisas de dentro.
Na praça, ela parou para descansar, perto da manjedoura iluminada, e ficou em uma espécie de transe, olhando-a. Furlong também olhou para as vestes brilhantes de José, a Virgem ajoelhada, as ovelhas. Alguém, desde a última vez que ele a tinha visto, havia colocado ali as figuras dos Reis Magos e do Menino Jesus, mas foi o burro que chamou a atenção da menina, e ela estendeu a mão para acariciar e tirar a neve da orelha dele.
— Que coisinha mais linda — ela disse.
— Estamos quase chegando em casa.
À medida que avançavam e encontravam mais pessoas, algumas que Furlong conhecia, ele se perguntava se havia algum sentido em estar vivo sem ajudar os outros. Seria possível continuar, durante todos os anos, todas as décadas, durante toda uma vida, sem nunca ter a coragem de ir contra com o que se passava naquele lugar e, ainda assim, dizer-se cristão e encarar-se no espelho?
Como sentiu-se leve e alto ao caminhar com essa jovem ao seu lado, com uma alegria nova e irreconhecível em seu coração. Será que a melhor parte dele estaria brilhando e viria à tona? Uma parte dele — havia algum nome para isso? — estava enlouquecendo, ele sabia. O fato é que ele pagaria por isso, mas nunca, em toda a sua vida simples, ele conheceu uma felicidade parecida com essa, nem mesmo quando suas filhas foram colocadas em seus braços, pela primeira vez, e ele ouviu seus choros saudáveis.
Pensou na Sra. Wilson, em suas gentilezas corriqueiras, em como ela o corrigia e o encorajava, nas pequenas coisas que ela dizia e fazia, e se recusava a fazer e dizer, e no que ela devia saber, as coisas que, somadas, totalizavam uma vida. Se não fosse por ela, sua mãe poderia muito bem ter ido parar naquele lugar. Em tempos passados, ele poderia ter salvado a própria mãe – se é que isso poderia ser chamado de salvar. E somente Deus sabia o que teria acontecido com ele, onde ele poderia ter ido parar.
O pior ainda estava por vir, sabia disso. Já podia sentir um mundo de problemas lhe esperando atrás da porta. Porém, o pior que lhe poderia ter acontecido também já ficara para trás: aquilo que não foi feito, que poderia ter sido, e com a qual ele teria de conviver pelo resto de sua vida.
Seja qual for o sofrimento a enfrentar, não chegará nem perto do que a garota, ao seu lado, já enfrentara. Subindo a rua em direção à entrada de casa, com a menina descalça e a caixa de sapatos, o medo superava qualquer outro sentimento.
***
29 de outubro de 2023
