So Late in the Day — Claire Keegan

Trechos

Mais um mês se passou até ele encontrar o anel de noivado, numa joalheria de luxo, na rua Grafton. Uma antiguidade, cravejada com dois diamantes, em ouro vermelho. O anel estava solto no dedo e precisava de ajuste.

Quando os dois foram buscá-lo, algumas semanas depois, no fim da tarde de uma sexta-feira, foi cobrado mais cento e vinte e oito euros e mais impostos. Ele a levou até a rua, e disse que deveriam recusar o pagamento desse gasto adicional, mas ela insistiu que já lhe contara desse custo.

— Acha que tenho uma árvore de dinheiro? — disse ele, e percebeu imediatamente a longa sombra das palavras de seu pai atravessando a sua vida, naquele que deveria ter sido um dia bom, senão o mais feliz.

Ela o encarou e ficou prestes a virar-se e ir embora, mas Cathal recuou, segurando-a pelo braço, pedindo-lhe desculpas.

— Espere, por favor — implorou. — Não foi minha intenção. Só não queria que se aproveitassem de mim, só isso. Entendi tudo errado.

***

— Saí, na semana passada, com a sua colega de trabalho, a Cíntia, para beber.

— É mesmo?

— Sim. Ela me levou para o Shelbourne.

— Eu não sabia que vocês se conheciam.

— Na verdade, a gente não se conhece. Ela só cuida do financiamento de alguns projetos na galeria. Enfim, acabamos bebendo uma garrafa de Chablis e começamos a falar de homens, homens irlandeses. E eu perguntei a ela o que vocês querem de nós, de verdade, e qual é a experiência dela.

Cathal sentiu uma necessidade súbita de levantar-se, porém, obrigou-se a permanecer sentado, de frente para ela.

— Quer saber o que ela disse?

— Não sei. — respondeu quase rindo.

— Então, talvez, você possa responder.

— Não sei — disse com sinceridade. — Nunca pensei nisso.

— Então, pense nisso agora.

Cathal esticou o braço, pegou o prato dela, levantou-se e o colocou no escorredor junto ao seu, antes de inclinar-se para trás e apoiar-se na bancada.

— Eu não sei mesmo. O que ela disse?

— Ela falou coisas que talvez estejam mudando agora, mas que, pelo menos, metade dos homens da sua idade só quer que a gente cale a boca e dê o que vocês querem, que vocês são mimados e ficam desprezíveis quando as coisas não andam do jeito que querem.

— É isso?

Ele queria negar, mas aquilo era uma verdade que ele nunca cogitara. Ocorreu-lhe que não teria se importado se ela ficasse quieta naquele momento e lhe desse o que ele queria. Ele percebeu a chance de contar uma piada, de amenizar o que havia acontecido entre eles, contudo, o momento passou, e ela virou a cabeça para o outro lado. Era esse o problema das mulheres que perdiam a paixão: o véu do amor caía de seus olhos, e elas olhavam para dentro dos homens e podiam ler seus pensamentos.

— Ela também falou que, para alguns de vocês, somos apenas bocetas, que ela ouve com frequência os irlandeses se referirem a mulheres desse jeito. A gente bebeu uma garrafa e nem havia comido ainda, mas eu me lembro bem, foi o que ela disse.

— Ah, é só o jeito que a gente fala aqui. É coisa da cultura. Não quer dizer nada, na maioria das vezes.

— A Mônica, a faxineira, contou para ela que você foi a única pessoa do prédio que não lhe deu nem mesmo um cartão de Natal. É verdade?

— Eu não sei — e ele não sabia mesmo. Ele não conseguia se lembrar se havia lhe dado alguma coisa.

— Você tem noção de que você nunca me agradeceu pelo jantar que fiz? Que nunca fez as compras do mercado nem preparou um café da manhã para mim?

— Mas eu não pedi a janta esta noite? E não ajudei você aqui o dia todo, arrumando suas coisas?

— Na noite em que você me pediu em casamento, você comprou cerejas no Lidl e me falou que elas lhe custaram seis euros.

***

Quando ele puxou as cortinas, a janela estava aberta. O castelo inflável ainda estava lá fora — ele podia vê-lo claramente, sob a luz da rua — mas agora não havia crianças.

— Boceta — disse ele.

Embora ele não conseguisse associar com precisão essa palavra ao que ela era, tratava-se de algo que ele podia dizer, algo de que ele podia chamá-la. Ficou parado, em silêncio, por um ou dois minutos, depois ouviu um barulho e percebeu que um marimbondo havia entrado e estava voando, ziguezagueando e batendo nas coisas. Pegou um sapato do chão, acendeu a luz do teto e começou a perseguir o inseto, seguindo seus movimentos aleatórios. Uma onda de raiva intensa lhe subia pelo sangue e, em determinado momento, quando estava de pé, no sofá, para tentar, sem sucesso, matá-lo, pensou em Mônica, a faxineira estrangeira, na escada, e em como ela o observou enquanto ele passava, naquele que deveria ter sido o dia do seu casamento. E pensou em Cíntia, e em como ela sorrira naquela manhã, e como ela levara Sabine para o Shelbourne, sem que ele soubesse.

— Malditas bocetas — soou melhor no plural, mais forte.

Ele continuou perseguindo o marimbondo, dando golpes mais vigorosos e ousados até que ele voou de volta para a janela, para fugir dele, e ele o encurralou entre a vidraça e o peitoril, matando-o.

Após jogar o marimbondo morto e fechar a janela, sentiu-se um pouco mais calmo e usou o banheiro do andar de baixo para dar uma longa mijada. Havia um tipo de satisfação em fazer isso sem ter de levantar a tampa e de colocá-la de volta no lugar, sem ter de lavar as mãos ou apenas fingir — mas o prazer desapareceu rapidamente, e ele precisou se esforçar para subir as escadas. Segurou o corrimão, arrastando-se pelos degraus com esforço e dificuldade. Sabia que não podia culpar o champanhe, mas, mesmo assim, o fez. Então, veio-lhe à mente uma frase de algo que lera em algum lugar, relacionada a términos: que se as coisas não terminaram mal, é porque ainda não terminaram. Quando entrou no quarto, desabotoando a camisa, tirando a calça e deitando-se, não quis fechar os olhos, pois, assim, podia ver com mais clareza o punho branco de sua camisa de casamento saindo do guarda-roupa embutido, e a pilha de cartões e cartas de felicitações não abertos na mesinha do corredor, além do anel de diamante, que ele não podia devolver, brilhando na caixa, na mesa de cabeceira; e podia ouvi-la dizendo, mais uma vez, e numa hora tão tardia, e muito claramente, que, afinal, ela não queria se casar com ele.

***

Publicado no site da New Yorker Magazine, em 21 de fevereiro de 2002.
https://www.newyorker.com/magazine/2022/02/28/fiction-claire-keegan-so-late-in-the-day

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