Quarenta anos depois — Michael McLaverty

Apesar da forte chuva batendo nas janelas, dentro do trem estava quente e confortável, e enquanto ele, quase vazio, chacoalhava e oscilava pelos campos na noite escura, a mulher na poltrona do canto continuava o tricô, e o marido, em cujos olhos já não se via o mesmo brilho, tentava ler o livro que balançava sobre os joelhos, apesar dos esforços para mantê-lo firme. Estavam sozinhos. Acima deles, no bagageiro, havia duas malas, um chapéu de tweed masculino e uma vara de pesca numa capa de lona marrom. Conversavam pouco, e quando o trem parava em alguma estação, ela erguia a cabeça do tricô e lhe perguntava:

— Onde estamos agora, John?

O marido olhava seu relógio e respondia. Poucos minutos depois, o funcionário do trem, indo até a plataforma, confirmava em voz alta o nome da estação que John já anunciara. Depois, o apito do guarda irrompia no meio da noite, e com um solavanco o trem novamente partia, e as luzes da plataforma brilhavam por um instante dentro das cabines, que iam avançando.


Ela retomava o tricô; o homem, a leitura. E seus reflexos nas janelas escuras lhes faziam companhia.

O trem ganhava velocidade, e o livro, equilibrado no joelho, agitava-se tanto que ele dobrou o canto de uma página, fechou-o e, cruzando os braços, recostou-se no apoio para a cabeça. Ela olhou para ele, os cabelos brancos e o rosto pálido, que, após algumas semanas de pescaria, voltaria à cor morena que ela adorava tanto. Eram as primeiras férias juntos desde que ele se aposentara como professor, e que ela lhe permitiu planejar sem dar uma sugestão. Para a felicidade dela, ele escolhera da última semana de agosto até a primeira de setembro. Os hotéis estariam mais calmos, e o sono deles não seria perturbado pelos veranistas incansáveis que abarrotavam os hotéis de julho até meados de agosto. Sim, os hotéis, como o trem, estariam agradavelmente vazios.

O trem desacelerou, e quando parou, o homem acordou e ouviu a chuva batendo no teto dos vagões e escorrendo pela janela. Bocejou e esfregou os olhos.

— Onde estamos agora, John?

Ele não respondeu, mas, com um jornal dobrado, limpou um pouco do embaçado na janela e, olhando lá fora, deparou-se com uma plataforma lúgubre, na qual anúncios encharcados de chuva reluziam sob as luzes do trem. Aguardou o funcionário anunciar o nome da estação, mas com o trem quase vazio, achou que não valia a pena o anúncio.

Ele se levantou para abrir a janela, e ela mandou que colocasse o chapéu senão pegaria um resfriado. Ele obedeceu, enfiando-o na cabeça, e ao abrir a janela, algumas gotas de chuva respingaram para dentro da cabine. O ar frio contra o seu rosto, a plataforma molhada e deserta, somente o guarda e o carregador, e além dos postes com setas brancas, que sinalizavam o fim da plataforma, uma luz vermelha de sinalização cintilava na escuridão.

O trem assoviou, o guarda ergueu a bandeira e apitou, e enquanto o vagão passava lentamente pelo fim da plataforma, John viu o nome TOOME em letras grandes e brancas num retângulo preto. Por um momento, avistou as luzes da cidadezinha e continuou debruçado, enquanto a mulher o intimava a fechar logo de uma vez a janela. Ele parecia não a ouvir, e o trem passou como um raio sobre a ponte, atravessando o rio, e uma luz solitária na margem traçava seu reflexo na água gelada.

— John!

A mulher se levantou, empurrou-o para o lado, e fechou a janela com a alça de couro.

— Você quer que sua nevralgia volte?

— Era Toome!

— Não estou nem aí, podia ser o Palácio de Buckingham. Não tem por que ficar debruçado aí por tanto tempo. Lugarzinho desgraçado para ficar olhando!

— Eu já morei lá, Margaret — disse calmamente.

— Não! — disse ela, incrédula, olhando-o de lado.

— Morei sim, mas foi pouco tempo. Meu primeiro cargo de professor.

— Você nunca falou disso antes. E há quanto tempo estamos casados? Quarenta anos. Tá bom, tá bom, mas por que você nunca me disse que trabalhou lá?

— Porque nunca me passou pela cabeça, só isso.

—Vamos, John. Deve ter algum motivo.

De repente, ela se animou e enrolou o tricô, colocando-o dentro de uma revista.

— Deve ter um motivo pelo qual você escondeu isso de mim por todos esses anos. Vamos, seja homem e me diga o que está pensando!

O trem deu um apito agudo e acelerou no meio da noite, e ele, não mais interessado no livro, fechou os olhos com uma expressão triste que lhe envelhecia o rosto.

A mulher inclinou-se em sua direção e lhe tocou o joelho.

— O que fez você sair de lá? Ficou muito sozinho?

— Não era isso, eu gostava de lá. Adorava pescar e passear de barco. Passava horas naquele rio que cruzamos.

— E você foi embora porque gostava de lá. Não faz o menor sentido. Vamos, por que está cheio de segredos? Preciso saber.

— Não tem nada para eu contar, Margarete — disse ele, com um sorriso triste. — Faz mais de quarenta anos que saí de lá, não há nada o que contar.

Ele deu de ombros e encostou-se no assento.

— Você estava apaixonado?

— Acho que não foi isso.

O trem estendia-se vorazmente por toda a extensão da planície, os ombros deles sacudiam e balançavam, e a cabeça do homem roçava contra o couro do encosto. Toome, a Toome que ele conhecera ficou para trás, distante — o rio que se desenrolava como uma teia de gelo por sobre as quedas d’água e depois se ampliava em pequenos lagos, que ele explorara nos longos dias de um verão que desapareceu.

— John, tem alguma coisa aí na sua cabeça, daquele lugar, que preciso saber.

— Não é melhor deixar o passado descansando em paz? Por favor, Margaret.

— Então, você tem um passado! E em todos os nossos anos de casado eu nunca soube.

Ele sorriu e permaneceu distante dela, envolto nessa lembrança secreta.

Ela abriu a bolsa, retocou o rosto e, por um tempo, o perfume ficou no ar. Não tinham filhos, e apesar da idade, ela vestia roupas de jovem para realçar uma aparência que ainda era atraente. O trem chegaria atrasado em Derry, onde passariam a noite antes de partirem rumo a Donegal, pela manhã.

— Ela era bonita, essa sua antiga namoradinha?

— Eu não disse que ela era namorada. Você que está dizendo.

— Se você se apaixonou por ela, é porque ela devia ser bonita. Ela era professora na mesma escola?

— Era, e um pouco mais velha do que eu, e também era diretora. A escola tinha duas salas de aula.

— E você a pediu em casamento, ela recusou, e você foi embora ofendido.

— Não, Margaret, ela já era casada.

— Agora isso fica mais interessante.

— Isso fica mais triste. Por que você está tão irritada? Quer que eu conte sobre o que eu não sei. Agora isso não importa. Isso foi há uns quarenta anos.

— Eu te amo tanto que ainda poderia ficar um pouquinho ciumenta — disse ela com uma ironia involuntária. — Você me deu a entender que eu tinha sido a primeira por quem você se apaixonou.

— E foi. A verdade é essa.

— Como você está ranzinza essa noite! Por acaso você gostaria de retornar para passarmos uns dias pescando em Toome?

— Não, não gostaria. Nunca voltei para lá desde que fui embora.

— Ela ainda está viva?

— Não, ela morreu logo depois que fui embora. Morreu num acidente de barco. Li nos jornais. Que Deus tenha piedade dela.

Desviou-se dos olhos de interrogação da mulher e observou a janela, o reflexo borrado de suas mãos, o cabelo da mulher e o seu próprio rosto.

— Era casada com um homem um pouco mais velho do que ela. Quando ele bebia, ficava violento. Por algum motivo, ela me contava isso. Ela sentia, eu acho, que eu a compreendia e não ia abrir a boca.

Ele ergueu a mão, que caiu sem firmeza sobre o joelho.

— Ah, Margaret, vamos deixar esse longo passado em paz — e ele negou com a cabeça, num gesto triste.

— Então ela se abria para você porque confiava em você. E aqui estamos, depois de todos esses anos de nossas vidas, e você não quer me fazer confidências.

— Depois de quarenta anos, não estou livre das promessas que fiz a pedido dela. O tempo não deve corroer a crença e a confiança de uma pessoa. Ela me pediu para eu jamais repetir o que ela confidenciou para mim, e eu nunca fiz isso.

— Não estou lhe pedindo. Mas com certeza você poderia contar como ela era, como se vestia.

Ele fez uma pausa e deu um sorriso resignado.

— Ela tinha cabelo preto, bem preto. Os olhos eram verdes. Geralmente vestia blusa e saia. Às vezes uma blusa amarela, branca ou verde e uma rosa presa com alfinete.

— Para um rapaz jovem, recém-saído da faculdade, até que você guardou um bocado sobre ela.

— Eu a vejo apenas na memória. Suas perguntas que trazem tudo isso de volta.

— Mas qual motivo ela tinha para confiar em você?

— Não sei. Éramos só nós dois na escola o dia todo. Acho que a jovem coitada estava solitária e não tinha ninguém com quem conversar. Era a confiança dela em mim que fez com que eu saísse e buscasse outra escola. Na hora do almoço, enquanto as crianças estavam no parquinho, nós tomávamos chá, e ela costumava erguer as mangas da camisa e mostrar os hematomas roxos nos braços e as marcas de dedos do marido. Eu tinha pena dela. Muitas vezes queria lhe dar um abraço para consolá-la.

Ele negou com a cabeça.

— Há momentos, Margaret, em que a afinidade e a piedade podem ser perigosas.

— John, parece que você nunca tinha ouvido falar do nono mandamento.

— Sim, foi isso que me fez sair de lá tão de repente. Eu sabia que aquilo não podia continuar. Quando vi as lágrimas nos olhos dela, precisei usar toda minha força para impedir que eu erguesse a sua mão e a beijasse. E o jeito que ela cantava… Eu costumava fazer uma pausa para ouvi-la, enquanto ela conduzia as crianças em The Last Rose of Summer. Aquela canção, só Deus sabe, é triste demais. Mas o modo como ela cantava deixava essa canção a mais triste de todas.

O trem apitou e as rodas trepidaram de forma irregular no cruzamento de uma estrada, abafando a voz dele, que juntou as mãos e as soltou por entre os joelhos, ficando em silêncio.

— Continue, John, me conte mais sobre essa mulher. Você alguma vez a beijou?

— Nunca!

— Jura?

— Margaret, por que você me importuna sobre um acontecimento de quarenta anos? Eu não a beijei, estou falando!

— Mas você queria!

— Ela era mulher de outro homem. Um dia eu fiquei horrorizado, no caminho da escola para casa, ao ver escrito com giz numa rocha, à margem da estrada, as nossas iniciais: J.T. ama M.D. Mary Doyle, o nome dela, veja você. Apaguei as iniciais com a grama que retirei de uma vala. Ela riu e disse: “Eles não são uns capetinhas?”. Eu estava mais nervoso que ela. Ela gostava de verdade das crianças, você podia perceber isso pelo modo como falava com elas. Mesmo quando ela estava brava, as crianças sentiam o amor. E sabe, Margaret, elas a amavam e a respeitavam tanto que nunca mais escreveram aquilo de novo. Se o marido tivesse visto aquilo, só Deus sabe o que ele teria feito.

Uma súbita rajada de vento golpeou as janelas, e a chuva batia contra elas como pedras. Ele suspirou, olhou fixamente para uma alça de couro que balançava e prosseguiu.

— Não tinha nada de errado com nossa amizade. Era ela quem abria a escola de manhã cedo. À tarde, ela me pedia para que eu a esperasse enquanto ela arrumava as salas, porque o caminho da minha rua passava pela casa dela. Depois o silêncio, quando as crianças iam embora. Um silêncio como nenhum outro que me lembro desde então. O relógio na parede, que antes não conseguíamos ouvir o tique-taque, agora era como se fosse golpes de marreta. À nossa volta, mesas vazias, um boné rasgado de um menino e o grande mapa da Irlanda remendado com esparadrapos. Posso ver tudo isso como se fosse ontem. Ela parecia relutante em sair de lá. Era como um lar para ela, eu acho. E depois de passar o pó no rosto, segurando um pequeno espelho, menor que um cartão postal, eu segurava o casaco enquanto ela se esforçava para vesti-lo. Ela costumava sorrir e, com sua voz musical, dizia: “Como você é gentil”. E depois, em nosso caminho para casa, falávamos sobre livros. Ela gostava de ler, mas o marido não. Eu lhe emprestava alguns livros. Certa vez, o marido queimou um deles numa de suas fúrias, e, depois disso, ela se recusou a aceitar qualquer outro. Era o jeito dela, sempre cuidadosa com os outros. Lembro-me de um dia, indo para casa, em que ela avistou um lacinho de criança na poeira da estrada, e, em vez de chutá-lo com a ponta do pé, ela o pegou do chão, colocou na bolsa, e, pela manhã, lavou e passou o lacinho, e foi em busca de seu dono. Não é triste, Margaret, uma esposa jovem como ela se afogar num acidente de barco?

— Pelo que você diz, eu concluo que você estava apaixonada por essa Doyle. Não estava?

— Não, acho que eu não estava. Como eu poderia estar, se ela tinha com um anel de casamento no dedo.

— E você acha que ela estava apaixonada por você?

— Não sei. Ela nunca fez ou disse qualquer coisa que expressasse isso, até onde eu sei.

— Você teria ficado em choque se ela tivesse feito alguma coisa?

— Eu pretendi deixar a cidade, pelo amor da minha própria alma. Ela já era casada. Eu costumava me ver pensando nela, imaginando o marido grosseiro, o quanto ele era cruel, e ela tão delicada. Nas manhãs, seus olhos muitas vezes estavam vermelhos de choro. Porém, nunca demonstrei que percebia isso, e depois, à medida que o dia passava, ela ficava feliz, parecia mais jovem. A presença das crianças tinha esse efeito sobre ela. Ela ficava mais feliz ensinando e secando os casacos molhados das crianças perto da lareira da escola. Como ela era cheia de vida e graciosa em todos os seus movimentos.

— Você se encontrou alguma vez com o marido dela?

— Encontrei, mas nunca troquei muitas palavras com ele. Tinha dinheiro de sobra, mas desperdiçava tudo de um jeito idiota. E observá-la voltando da missa de domingo, tão viva, e ele, com sua risada tosca, sua lentidão, seu colete rechonchudo. Sempre me perguntava por que ela tinha se casado com ele.

— E não com você, é isso o que pensou?

— Mesmo que ela fosse solteira, eu não poderia me casar com ela. Eu não tinha nada. Tudo o que eu ganhava ia para o aluguel. Mas, de qualquer forma, a ideia de casamento nunca me passou pela cabeça. Não era isso, Margaret. É que ela era infeliz e eu queria, não sei como, que ela fosse feliz.

— O que ela disse quando você contou que estava indo embora?

— Ela lamentou minha partida. Me implorou para que eu mudasse de ideia. No meu último dia, ela me deu uma caneta tinteiro e pediu para que lhe escrevesse.

— E você escreveu, né?

— Não, Margaret, ela me pediu para enviar a carta para escola.

— Uma mulher pode falar por uma mulher, John. Essa Doyle estava apaixonada por você. Deus sabe o que teria sido o fim da história se você tivesse ficado lá.

— Talvez eu não tivesse conhecido você.

— E você se arrepende disso, depois do que você me contou?

— Margaret, o que você está dizendo? Depois de quarenta anos… Não tenha dúvida do meu amor por você. Nunca usei a caneta que ela me deu. É aquela que está na caixa, numa gaveta, em casa.

— Você nunca a usou. Sempre me perguntei por que você nunca se desfez daquela caneta. Você que é tão generoso, generosíssimo. É uma lembrança. É por isso que você nunca se desfez dela. Faz lembrar dela.

— Uma vez, eu a ofereci para você. Mas você não ia usar. A ponta era muito grande, você falou.

— Mas você poderia ter se desfeito dela.

— Nunca me passou pela cabeça. Mas farei isso quando chegarmos em casa. Eu poderia doar para um bazar de caridade, sei lá.

— Você está dizendo isso porque agora eu peguei você. Por mim, você pode guardá-la por outros quarenta anos.

Ele balançou a cabeça, inclinou-se para frente, e deu uma palmadinha nas costas da mão dela. Ela deu de ombros, afastando-se dele, e retomou o tricô.

— A pobre coitada não teve muita coisa na vida — continuou ele. — Morreu, pode-se dizer, antes de ter começado a viver. E a morte dela…

— Eu não quero ouvir mais uma palavra sobre ela! — e, arrancando as agulhas, tombou o novelo de lã, que rolou no assento e caiu no chão. Ele o pegou e o deixou no colo dela.

— O barco deles foi encontrado virado de cabeça para baixo. Uma rajada de vento inesperada deve tê-lo atingido. A vela mestra, veja você, tinha sido amarrada, assim estava nos jornais. O corpo do marido foi parar em uma praia, numa das ilhas, mas o dela nunca foi encontrado. Nunca. Provavelmente foi levado rio abaixo, na cheia, e depois para o mar… E pensar que ela morreu dessa maneira, tão jovem, alegre, cuidadosa com os outros… Que Deus tenha piedade dela.

Ele recostou-se no apoio da cabeça e fechou os olhos. A mulher continuou o tricô numa velocidade constante, e o trem chacoalhava com frouxidão na viagem pela noite.

***

2015.

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